terça-feira, 18 de setembro de 2007

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

O 20 de Setembro nas páginas da Gazeta

Beatriz Dornelles

A missão de registro histórico, intrínseca a todos os jornais que circulam a qualquer tempo, em qualquer lugar do mundo, é extremamente nobre, insubstituível e essencial para a memória de um país. Não fosse a imprensa, nada saberíamos sobre os movimentos comunitários de milhares de municípios, seus líderes, seus costumes, seu folclore, sua cultura, sua educação, sua economia, suas doenças, seus loucos, seus artistas etc. Tudo isto estaria perdido não fosse o trabalho diário dos jornalistas de colocar nas páginas dos jornais o movimento de uma cidade e de seu povo.
O Rio Grande do Sul tem uma data muito importante, comemorada por todos os gaúchos com muito garbo e orgulho: é o 20 de Setembro, que marca a Revolução Farroupilha. Para Alegrete, esta data tem sabor especial, pois a cidade foi a 3ª Capital da República Rio-Grandense, sede do Governo e da Assembléia Constituinte. E para satisfação histórica, a cidade também possui o mais antigo jornal de interior do Brasil, a Gazeta de Alegrete, que nasceu em 1882. Assim, ela pôde acompanhar todas as comemorações feitas por alegretenses em memória da Revolução Farroupilha.
Como seria impossível em um artigo jornalístico contar mais de 50 anos de história de comemoração do dia 20 de Setembro, o que começou em meados dos anos 50, do século passado, vamos relembrar o que a Gazeta de Alegrete registrou nos últimos 30 anos.
Em 1976, a comemoração do dia 20 é trágica. O palanque armado na Praça Getúlio Vargas, com capacidade para suportar 20 pessoas, recebeu 60 e desabou, resultando na morte de um menino de 11 anos, Airton Saldanha Mazzui, filho de João e Universina. Várias pessoas ficaram feridas.
Em 1981, desfilaram no dia 20 de setembro 11 Centros de Tradições Gaúchas de Alegrete. O desfile iniciou-se às 10h e premiou os peões e os piás melhores pilchados. Houve bailes de encerramento e o destaque foi de Ciro Vargas Paim, na época, patrão do CTG Aconchego dos Caranchos, por seu trabalho de preservação das origens. Naquele ano, novos piquetes se apresentaram, estando, entre eles, o Plínio Macedo.
No ano de comemoração do sesquicentenário da Revolução Farroupilha (1985), quando era prefeito de Alegrete Adão Dornelles Faraco, a cidade fez feriado. O prefeito baixou o seguinte decreto:
“Considerando que 20 de setembro constitui a data maior de nossa história, onde são comemoradas as grandiosidades dos feitos de nossos antepassados, substanciados nos ideais da República do Rio Grande, bem como o caráter permanente desses valores, que devem ser cultivados; que Alegrete foi a 3ª Capital da República Rio-grandense, sede do Governo e da Assembléia Constituinte e que igualmente, neste ano, comemora-se a singular data do Sesquicentenário da Revolução Farroupilha, levando em conta ainda a grandiosidade das comemorações com a efetiva participação do povo alegretense, decreto ponto facultativo no município de Alegrete, dia 20 de setembro, excetuando-se os serviços essenciais da Prefeitura”.
Em 1982, a Gazeta teve diversas edições especiais, pois comemorou seus 100 anos de existência. E prestou um duplo serviço histórico, resgatando a história do município nos 100 anos de sua existência. Sobre a imprensa, registra que Alegrete teve seu primeiro jornal em fins de setembro de 1842 e princípio de 1843, segundo o Almanack Rio-Grandense, de Alfredo Ferreira Rodrigues, de 1899. O primeiro jornal foi O Americano, criado em 1842; em 1843 surge o Estrela do Sul; em 1858, O Alegrete e O Alegretense; em 1863, aparece o Helicon e, em 1871, A Justiça e o Eco Alegretense; em 1876 funda-se o Jornal do Comércio. Em 1881 aparece O Século e, finalmente, para resistir até os tempos atuais, em 1882, é criada a Gazeta de Alegrete, do Partido Republicano. No mesmo ano, foi fundado O Porvir, do Partido Conservador. Até abril de 1981, foram lançados e fechados mais 39 jornais na cidade.
As comemorações da Semana Farroupilha, em 1982, contaram com bailes, churrascos, concursos de trovas no CTG Nico Dornelles e provas campeiras no CTG Farroupilha. Os bailes aconteceram nos CTGs Farroupilha, Aconchego dos Caranchos e no Vaqueanos da Fronteira. Também houve missa crioula, desfile e escolha de peão e piá mais bem pilchados, concurso que virou uma tradição nesta data. A primeira prenda foi Marilene Mendonça, do CTG Aconchego dos Caranchos. As comemorações encerraram-se com discurso do prefeito da época, Ernani Mota Antunes. Era governador do Estado Amaral de Souza.
Em 1988 o desfile do dia 20 foi coordenado por Eli Siqueira Simon e Marcial Estivalet Dorneles. A Semana Farroupilha prestou homenagem à raça negra pela contribuição ao Rio Grande do Sul. Dentro da programação desse ano, também se comemorou o 25º aniversário do CTG Amizade de Vasco Alves.
Nos anos 90, as comemorações começam a sofrer mudanças significativas, enriquecendo os desfiles. Em 1993, a Semana Farroupilha teve como tema “A Revolução Federalista de 1893”. O movimento tradicionalista de Alegrete buscou resgatar a história tida por abominada. Na época, Nilo Gonçalves era o prefeito da cidade. As comemorações incluíram torneio de truco, programa radiofônico nas emissoras locais, Hora de Arte, Tertúlia, canastra, bocha, chimarrão dançante, feira de artesanato, missa crioula, fandangos, churrasco e bailes. Catorze CTGs desfilaram no dia 20.
“150 Anos da Paz de Ponche Verde” foi o tema da Semana Farroupilha em 1995, enaltecendo os feitos do General José Antonio Flores da Cunha. Desfilaram cerca de cinco mil cavalarianos, coordenados por José Luiz Dockorn da Silva.
No ano 2000 o tema foi semelhante: “Inspirados em Ponche Verde construímos a paz no Rio Grande do Sul”. Houve chama crioula, bailes, concursos, churrascos etc. O itinerário da cavalgada foi da BR 290, passando pelo corredor do regalado, avenida Rondon, Avenida Assis Brasil, Avenida Dr. Lauro, rua Vasco Alves e Praça Getúlio Vargas.
Finalmente, em 2004, o desfile recebe um grande impulso. O governo do Estado, objetivando aproveitar o potencial turístico das comemorações no interior, desenvolvendo o turismo regional e interno, lançou o projeto de desfile temático. O tema desenvolvido foi em torno dos ideais farroupilhas: liberdade, igualdade e fraternidade. Alegrete realizou um desfile com arquibancadas, sonorização, espaço para imprensa, caracterização típica, camarote e carro temático. Oito mil cavalerianos desfilaram no dia 20 de setembro e puderam ser acompanhados pela Internet, através do site www.alegrete.rs.gov.br ou www.webalegrete.re.gov.br, o que deve se repetir neste ano.
Como se pode observar, a partir do registro dos acontecimentos, realizado pela Gazeta de Alegrete, temos condições de resgatar a história das comemorações do dia 20 de Setembro pela população alegretense nos últimos 50 anos.

RESENHA DO LIVRO “CRÔNICA: A ARTE DO ÚTIL E DO FÚTIL”,

Por Beatriz Dornelles

Para quem gosta do jornalismo opinativo, Crônica: a arte do útil e do fútil é um livro imperdível, pois oferece um panorama histórico da crônica desde sua origem, na literatura, chegando aos tempos atuais, na imprensa. A maneira relatada por Wellington Pereira tornou a obra indispensável aos estudantes de jornalismo e de outras áreas interessadas no tema, deixando como sugestão que outros estudos de pós-graduação possam ser feitos em torno do gênero, porém investigando-se em outros veículos de massa, como no rádio e na televisão.
Apaixonados pelo gênero e pesquisadores encontram na obra as origens da crônica, sua relação com o passado, suas transformações, suas evoluções, e estabelece as diferenças com o ensaio, definindo-o e relatando seu panorama histórico. Pereira apresenta observações relevantes sobre a crônica, a evolução dos conceitos e formas de fazê-la, além de suas características, destacando, logo na abertura do livro, que se trata de um gênero tipicamente brasileiro.
Segundo registrou no prefácio José Marques de Melo, “a crônica significa para os leitores contemporâneos um espaço ao mesmo tempo de reflexão e deleite sobre os fatos cotidianos, habilmente captados por jornalistas capazes de expressá-los de forma amena e crítica”.
Na obra, encontramos, ainda, as origens do termo “cronismo”, as formas lingüísticas da crônica, a opinião de diversos autores, os vários tipos de crônicas e as contribuições dos cronistas. Enriquece essa primeira parte da obra o panorama histórico dos Folhetins, relacionados com a história da crônica, destacando-se as características e diferenças de ambos.
Pereira trata da origem da palavra e as evoluções conceituais de crônica logo no primeiro capítulo, destacando que, nas origens, a noção de crônica estava estritamente ligada à definição histórico-social do tempo nas sociedades. Assim, a crônica nasceu com a legitimação de um processo de anunciação e não de enunciação. Mostra a história que não havia uma interpretação dos fatos narrados, mas apenas sua exposição feita em função de uma ordem cronológica.
É com este sentido que a crônica atravessa os séculos e se aproxima dos historiadores do século XII, na França, Inglaterra e Espanha, assumindo características mistas: ora relato histórico, ora ficção literária, mas com o único objetivo de representar as relações dos homens com o tempo em que vivem, analisa Pereira. Nessa época, o indivíduo encontra uma maneira de tratar os eventos sociais que se sucedem ao seu redor, adequando-os de acordo com as normas sociais e a tradição de seu povo.
No século XVI a crônica ganha outro significado e, segundo alguns autores, esse período fornece elementos para a identificação da gênese do termo crônica. É nesse momento que o autor entra com um estudo aprofundado sobre o Ensaio, considerado, por alguns, como a origem da crônica, o que não é aceito por ele. Segundo Pereira, a crônica ainda caminhava entre os relatos históricos e as nuanças da ficção literária da época, quando o ensaio tornou-se um gênero valorizado pela intelligentsia.
A melhor definição de Ensaio, para o autor, é a que diz que o gênero busca aproximar a linguagem escrita da linguagem coloquial, dando ênfase à maneira de expressão de cada indivíduo. “O ensaio é um breve discurso, compacto, um compêndio de pensamento, experiência e observação. É uma composição em prosa, breve, que tenta (ensaia) ou experimenta interpretar a realidade à custa de uma exposição das reações pessoais do artista em face de um ou vários assuntos de sua experiência ou recordações”, definiu Afrânio Coutinho, em A Literatura no Brasil. O estudo revela, ainda, que o ensaio pode recorrer à narração, descrição, exposição, argumentação, e usar como apresentação a carta, o sermão, o monólogo, o diálogo, a crônica jornalística. Não possui forma fixa. Sua forma é interna, estrutural, de conformidade com o arranjo lógico e as necessidades da expressão.
Interessante observar que numa relação informal com o discurso, o ensaio apresenta as seguintes características, enfatizadas na obra: ênfase na oralidade, construção do texto num tom pessoal, sem qualquer estrutura clássica, sendo visto por alguns estudiosos como modelo seguido pelos cronistas.
Todavia, Pereira afirma que considerar a crônica como um modo de representação e expressão do ensaio é desconhecer a pluralidade de seus significados, porque o texto do cronista não é apenas a tentativa ou a possibilidade de ensaiar uma conceituação para alguns fatos de uma sociedade com tempos históricos determinados. A crônica, mesmo em seu sentido histórico, busca um enriquecimento estético ao tentar agrupar os elementos estruturais que irão habitar no seu interior. Assim, o autor refuta a noção de crônica enquanto apêndice do ensaio ou como um dos seus elementos.
A partir do século XIX, a crônica passa a enfocar as relações fragmentadas do mundo moderno. Nesse período histórico, comenta o autor, há uma infidelidade à razão, um tributo à imaginação, fazendo com que o ato de enunciação de quaisquer fatos possa transmitir entre os anais da História e a ficção literária. A partir do Romantismo, a crônica ganha uma maior liberdade estética, continua híbrida, dificultando uma definição clara e objetiva do que seja a palavra crônica. Mas foi a partir deste momento que a crônica assumiu a personalidade de gênero literário com características próprias, tornando-se hoje uma forma literária de requintado valor estético, um gênero específico e autônomo, a ponto de ter levado Tristão de Athayde a criar o termo “cronismo” para a sua designação geral como gênero literário, relata Pereira.
Na primeira metade do século XIX, a capacidade de opinar, aliada a um certo rebuscamento literário, fez da crônica uma forma de expressão transitória entre a retórica e as manifestações literárias. A ampliação do significado de crônica, apresentado por diferentes autores, é analisada por Pereira, que refuta a maior parte dos conceitos.
Quanto às características da crônica em jornais, afirma o autor: ela não serve como método para aprofundar a notícia, pois esta se configura como um dos gêneros jornalísticos que trazem procedimentos técnicos que lhes são peculiares no processo da linguagem do jornal impresso. As técnicas que regem o jornalismo noticioso ou opinativo não se aplicam ao exercício do cronista. No entender de Pereira, a crônica determina novas relações com os gêneros jornalísticos, não se limitando a informar ou opinar, mas construindo novos significados na própria articulação entre as várias linguagens que o cronista exercita para explicar as representações de seu mundo ao leitor.
Após aprofundada reflexão sobre a origem, desenvolvimento e situação atual da crônica, a obra apresenta o histórico dos Folhetins, estabelecendo suas diferenças com a crônica e apresentando suas características e definições. De maneira bastante clara, o folhetim é descrito como um modo particular de narrar que caracteriza a sociedade em sua fase de industrialização e a noção de cultura que guarda relações complexas com as formas de poder. Segundo o autor, “o folhetinista não só encetou o suspense ou a técnica do gancho, através dos jornais diários, no seu convívio com os leitores, mas demonstrou que tudo se tornou possível aos olhos da modernização”.
Contextualizando as modificações sofridas ao longo dos tempos, o autor conta que no período em que a crônica toma impulso e adquire autonomia estética (século XIX), os jornais ainda não têm um sistema ou linguagem que provem a independência dos seus discursos diante dos gêneros literários. Aos poucos, os jornais vão assumindo ares de empresa, o que implica em tratamento mais adequado para a notícia, mas também na absorção de inúmeros colaboradores que dão à imprensa um tom meio político, meio literário.
No capítulo 2, a crônica no jornalismo brasileiro do século XIX é esmiuçada. O autor discute a construção do jornalismo naquele século, dando ênfase às suas características, tomando como base a distinção entre imprensa e jornalismo. Estabelece a diferença entre ser imprensa e ser jornalismo, concentrando seus argumentos nas hipóteses de que a imprensa da primeira metade do século XIX não legitima seus jornais e não tem autonomia estética.
Nesse período, a imprensa no Brasil não pode ser vista como um exercício puramente jornalístico. O caráter doutrinário embutido nos impressos perfazia toda uma imagem de jornais que, na sua maioria, não sobreviviam longe da sombra do poder. Relata o autor que praticamente não havia o exercício da construção da opinião pública, mas uma imposição de idéias como um instrumento de reforço ético e social para as medidas dos governantes.
Conforme mostra a história da imprensa, até 1898, os jornais conservavam quase a mesma linguagem da imprensa colonial. Não se conheciam ainda as técnicas de apresentação dos fatos e as manchetes não eram utilizadas nas primeiras páginas. Predominava nas páginas dos jornais o tom opinativo, a literatice dos jornais e o fato político.
Esse quadro vai mudar a partir das crônicas de Machado de Assis, publicadas diariamente na Gazeta de Notícias, seção “A Semana”, de 1890 a 1892, onde ele instaura uma nova relação entre os escritos jornalísticos e a literatura e conquista autonomia estética em relação aos gêneros jornalísticos. Os cronistas, então, reestruturam enunciados, ampliam o significado dos fatos e dão ao leitor a capacidade de interpretá-los.
Machado provoca rupturas no aspecto lingüístico do jornal, questiona a relação entre o jornal e o público, desmistifica o caráter opinativo e estabelece uma nova ordem de organização textual. Assim, cria um novo espaço para o leitor, elabora alguns princípios da linguagem dos jornais da época, pois, ao invés de construir fatos em que predomina a visão dos poderosos, dá importância às coisas miúdas do cotidiano, ao falatório nas ruas, às idéias de libertos ou escravos, senhoras e crianças. Em quase 50 páginas, o autor descreve, analisa e interpreta as especificidades das crônicas de Machado, apresentando-as de maneira esplêndida.
Descreve o autor, por exemplo, que Machado procura demonstrar aos leitores a função do cronista: ampliar a capacidade de percepção dos acontecimentos sociais de forma crítica e estabelecer uma análise dos fatos anunciados que distorcem a realidade. Na prática, ensina que a admirável fusão conceitual do útil e do fútil, estabelecida por ele para definir a crônica no jornal impresso, serve para definir a relação entre a crônica e as várias linguagens estruturadas no espaço jornalístico, pois o importante é a percepção da linha tênue entre as banalidades e as “não-banalidades” da vida cotidiana.
Em suma, Machado de Assis não só percebeu os problemas da Modernidade em suas crônicas como assumiu o espírito e a essência da modernidade, que podem ser resumidos em uma única palavra: reflexão.
O terceiro capítulo da obra apresenta um quadro analítico da crônica no jornalismo brasileiro contemporâneo, que perde seu caráter literário. O jornalismo do século XX, descreve o autor, passa a conviver com novas formas narrativas que diferenciam as várias opiniões formuladas através dos jornais. A imprensa estrutura-se de acordo com a nova ordem social e o novo modelo de expansão do capital, não atingindo a maturidade lingüística apenas com a modernização industrial. Os grandes jornais deixam o vínculo doutrinário imposto pelos grupos políticos e partem para a consolidação da atividade jornalística enquanto empresa na primeira década do século XX.
Nesse contexto, o cronista do século XX torna-se uma espécie de narrador que, acima de tudo pensa o espaço de veiculação das informações. Ele sistematiza a informação, utilizando recursos lingüísticos exteriores ao universo da linguagem jornalística.
Conforme analisa Pereira, tendo por base argumentos e fatos apresentados por Cremilda Medina, Ciro Marcondes Filho, Luiz Beltrão e outros, o cronista do jornalismo-empresa procura ler as relações sociais e captar o discurso dos diversos segmentos sociais, pluralizando suas atitudes através de recursos estéticos. E João do Rio é apresentado como o melhor exemplo de convivência entre o exercício literário e as novas técnicas de elaboração da linguagem jornalística. O cronista deixa de ser um mero observador, como vinha sendo, para buscar os fatos onde eles estiverem, procedimento que se iniciou com João do Rio.
O texto apresenta, ainda, uma breve discussão em torno das categorias jornalísticas, destacando que a formulação dos gêneros jornalísticos não avançou no sentido de emprestar a esses uma autonomia estética e diferenciá-los dos procedimentos técnicos, utilizados para estruturar informação nos jornais. Segundo o autor, toda a definição dessas categorias é fruto de uma visão mercantilista do processo de informação.
Para finalizar, encontramos em “Crônica: a arte do útil e do fútil” uma análise das crônicas e do trabalho jornalístico de Carlos Drummond de Andrade, que estabeleceu novos parâmetros para a linguagem jornalística. Diz o autor: “O cronista Carlos Drummond de Andrade é o narrador de um mundo pós-moderno, fragmentado, mas com amplo domínio de seu enunciado, ao contrário do que ocorria no jornalismo do século XIX em que a crônica sempre estava ligada à retórica dos bacharéis ou ao pastiche dos nossos literatos”.

Os primeiros jornais de bairro comunitários de Porto Alegre

Relato da fundação e produção dos dois primeiros jornais de bairro que circularam em Porto Alegre, ambos com caráter comunitário e tendo como criador a mesma pessoa, o servidor público Odemar Marino Ferlauto. O primeiro, O SABIdo, é o pioneiro do Rio Grande do Sul, tendo surgido em 1954, no bairro Ipanema, zona sul. O segundo, o COLMEIA, foi fundado em 1967, também em Ipanema. Ambos circularam com distribuição gratuita entre os moradores do bairro, foram comercializados junto ao pequeno comércio da região e a profissionais liberais, e o modo de produção era artesanal. O jornal registrou o cotidiano dos anos 54 e 67 e serviu para disseminar as reivindicações da comunidade. O trabalho do editor tinha caráter de voluntariado e o jornal não visava lucro.

Palavras-chave: jornal de bairro, jornalismo comunitário, história da imprensa.
















Os primeiros jornais de bairro comunitários de Porto Alegre


Beatriz Dornelles


No dia primeiro de setembro de 1895 , circulou pela primeira vez, em São Paulo, provavelmente o primeiro jornal de bairro do Brasil, o Braz. Pelo menos, que se tenha conhecimento, não há nenhum documento indicando a possível existência de jornal de bairro antes dessa data no país.
Apesar do precoce nascimento do primeiro jornal de bairro, apenas em 1964, os jornalistas paulistas se mobilizaram para criar a Associação dos Jornais de Bairro de São Paulo, conforme registro em 22 de agosto de 1964, no jornal A Gazeta de Vila Mariana, localizado pelo jornalista Eduardo Monteiro . A idéia, no entanto, só se concretizou em 26 de abril de 1971. Reproduzimos o título e texto publicados na primeira página da Gazeta de Vila Mariana:

“JORNAIS DE BAIRRO TERÃO ASSOCIAÇÃO
Depois de algumas tentativas frustradas, conseguimos reunir na última 3.ª feira, nos salões do Monte Carlo Clube, vários dirigentes de jornais de bairro, com o intuito de fundar-se uma associação que os congregue e resolva seus problemas mais prementes.
Estiveram presentes "ao bate-papo”, que foi dos mais proveitosos, os Srs. Armando da Silva Prado Neto, representando a Gazeta de Santo Amaro; Reynaldo Rodrigues, representando "A Voz do Cambuci”; Antônio C. Treme, representando o "Brás Seller”; José Barbosa Pupo, publicista, representando "A Gazeta de Pinheiros” e a “Gazeta da Zona Norte”, além do Dr. Leonardo Mônaco e Eduardo Monteiro, Diretor deste semanário.
Entre outros temas, foram debatidos a questão da aquisição de oficina própria, quotas de papel, preços nas agências de publicidade e a colaboração dos comerciantes locais. No próximo dia 31, os dirigentes estarão reunidos novamente, para ultimarem detalhes sobre a fundação da aludida associação”.

Com uma história que já tem 34 anos de mobilização, os jornais paulistas apresentam significativa organização do segmento e já possuem, inclusive, um Sindicato das Empresas Proprietárias de Jornais de Bairro de São Paulo e várias associações de jornais de bairro por zonas de São Paulo (Leste, Norte, Sul, Oeste).
A pedido do presidente do Sindicato e demais entidades do segmento, em 22 de novembro de 1989, a Câmara de Vereadores da cidade instituiu o Dia do Jornal de Bairro. Porém, a data, foi escolhida aleatoriamente e não tem significado histórico. Com a pesquisa feita por Monteiro, o segmento está pleiteando desde 2003 a troca da data de comemoração de 13 de junho (Dia de Sto. Antônio) para dia 1º de setembro, data em que circulou o primeiro jornal de bairro na cidade de São Paulo, editado pelo então coronel Albino Bairão, o que certamente contará com o apoio dos parlamentares, já que se trata de preservar a história da imprensa alternativa . É apenas uma questão de tempo.
No Rio Grande do Sul, ao que tudo indica, a história dos jornais de bairro começa em torno de 1954, conforme pesquisa realizada por CRUZ (2000), quando foi lançado o SABIdo, jornal de bairro da zona sul de Porto Alegre, pertencente à Sociedade Amigos dos Balneários de Ipanema (SABI), fundada em 9 de fevereiro de 1953 . A informação é de Odemar Marino Ferlauto, idealizar do periódico, em entrevista a Cruz e também à autora deste artigo, no ano de 2000.
O jornal circulou por cerca de quatro anos (até 1958), tendo mais de 40 edições lançadas, distribuídas gratuitamente aos moradores do bairro Ipanema pelo Correio. Segundo Ferlauto, as notícias do SABIdo eram de interesse do bairro Ipanema, da própria SABI e dos 12 balneários existentes nos atuais bairros Ipanema, Espírito Santo e Guarujá. Em pouco tempo, o jornal transformou-se em instrumento reivindicatório dos moradores e veranistas daquelas praias.
O período de surgimento do jornal – que identificamos como comunitário e de bairro, conforme características relatadas por Janowitz – é bastante rico historicamente. Entre 1945 e 1964, período da 3ª República, conforme periodização de Fontes (2002) , a elevada taxa de natalidade no Brasil transformou seu crescimento em algo espantoso. O Censo de 1950 registra uma população de 52,2 milhões de habitantes; o de 60, marcou 70,7 milhões de brasileiros e, em 1979, já havíamos chegado a 93,1 milhões.
Em 1946 foi promulgada a 3ª. Constituição Republicana. Após o período de ditadura de Vargas (1937-1945), a democracia foi restaurada. A situação do país manteve-se instável. Getúlio Vargas voltou ao poder em 1950, tendo se suicidado em 1954.
Sucedeu-lhe na presidência, em 1955, Juscelino Kubitschek, que lançou um ambicioso programa de modernização do país, criando também a nova capital do Brasil: Brasília (1960). Estas medidas, não acompanhadas de uma gestão adequada do Estado, acabaram por provocar um aumento do déficit público e da inflação.
Sucede-lhe Jânio Quadros, mas este foi obrigado a renunciar sete meses após ter sido eleito. É a vez de João Goulart (1961-1964) que tentou, sem grande êxito, desenvolver reformas profundas na sociedade brasileira. A crise foi instalada.
Politicamente, desde 1937, embora predominasse no Brasil o Estado de Direito, já se percebiam traços de autoritarismo que se estenderam até 1964, quando ocorre o Golpe Militar no Brasil. Conforme registro da FEE , o autoritarismo expressava-se fundamentalmente na estrutura corporativista da organização sindical, que começou a ser montada em 1930. “O corporativismo descaracterizou e obstaculizou a livre manifestação das reivindicações dos trabalhadores” .
A partir de 1955, os setores representantes dos interesses do capital estrangeiro passaram a assumir uma importância crescente no processo de desenvolvimento nacional, buscando uma posição de vanguarda no plano político, tendo como porta-voz a União Democrática Nacional (UDN).
Os problemas de unificação administrativa e da uniformização de benefícios e serviços da Previdência Social constituíram-se na tônica do período; na área de saúde, estiveram em evidência as questões ligadas ao combate às doenças de massa e à ampliação da assistência médica; no setor trabalho, as lutas sindicais e a política salarial monopolizaram as atenções dos poderes públicos; quanto à educação, os aspectos mais relevantes foram a democratização do ensino e a qualificação profissional e, ainda, a existência de um expressivo déficit habitacional, que passou a ser encarado como uma questão social.
Com a volta de Getúlio Vargas à Presidência da República, em 1950, o movimento operário passou a ter nova esperança, no sentido de recuperar a cidadania e o poder de negociação que o Governo Gaspar Dutra lhe havia tirado. A morte de Getúlio, em 1954, interrompe esse processo de negociações.
Os anos 60 são marcados por um grande desenvolvimento econômico, mas também pelo regresso da ditadura ao Brasil. A 31 de Março de 1964, de Minas Gerais, de São Paulo e da Guanabara, irrompe um movimento militar que derruba João Goulart. Os militares colocam no poder o general Castelo-Branco, que governa de forma absoluta até 1967. Em janeiro de 1967 entrou em vigor uma nova Constituição de caráter autoritário, e dois meses depois o general Arthur da Costa e Silva assumiu a presidência da República. Este foi substituído em 1974 pelo general Emílio Garrastazzu Médici.
No Rio Grande do Sul, em 1954, o governador era Ernesto Dornelles e, em 1955, o cargo passa para Ildo Meneghetti. Sete partidos políticos compunham a Assembléia Legislativa naquela época: Partido Trabalhista Brasileiro, Partido Social Democrático, Partido Libertador, Partido de Representação Popular, União Democrática Nacional, Partido Social Progressista e Partido Socialista Brasileiro.
A população do Rio Grande do Sul, na época, era de pouco mais de 4 milhões. Porto Alegre tinha apenas cerca de 400 mil habitantes . Os anos 50 na capital gaúcha não foram de grandes mudanças. Conforme Medeiros , houve uma estagnação na economia sul-rio-grandense, com o surgimento de taxas negativas de crescimento.
Em Porto Alegre, um novo anteprojeto de plano diretor foi realizado para a cidade em 1954, sob forte influência das idéias de Lê Corbusier e da Carta de Atenas , onde quatro funções urbanas definiam o zoneamento do uso do solo: habitar, circular, trabalhar e recrear. O Plano foi instituído legalmente em 1959, durante administração de Ildo Meneghetti.
A imprensa sofreu diretamente com os percalços políticos do país. Getúlio Vargas, em 1937, na condição de ditador, estabelece a censura, restrições e limites para a manifestação do pensamento nas suas diferentes formas. Foi criado, então, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) para controlar a imprensa e regulamentar a censura.
Conforme destaca Bahia (1964) , jamais foi tarefa tão perigosa quanto fazer jornal no estadonovismo. “Ante o silêncio e a conivência de muitos, crescia a organização industrial da imprensa”, denuncia. Funcionando com o dinheiro do governo, a custa de favores públicos, semanários passaram a diários, revistas mensais a semanais, etc. Só em 1945 acabou a ditadura e a imprensa readquiriu sua liberdade.
Em 1953, nova Lei de Imprensa foi promulgada e, nela, os delitos do jornalismo receberam situação especial. A lei respeita as conquistas democráticas. No entanto, a partir de 1964, gradativamente, é restringida a liberdade de manifestação do pensamento. A censura é obrigatória e a liberdade da imprensa só é recuperada após o fim da ditadura militar, em 1985.
Após a Segunda Guerra Mundial (1945), com a mobilização popular pela Constituinte, a queda da ditadura Vargas, a expansão da indústria, entre outros fatores sociopoliticoeconômicos, surge o novo jornalismo no Brasil, que ingressa na cultura de massas. Acontece a competição por maiores tiragens, busca de público, crescimento do sistema de radiodifusão, jornalistas formam-se nas universidades, e o objetivo da imprensa passa a ser a interpretação desapaixonada do acontecimento.
A missão do jornalismo é modernamente também uma missão de educação, afirma Bahia . No entanto, a alta taxa de analfabetismo brasileira, que conseqüentemente resulta na ausência de hábito de leitura, é a principal causa de baixas tiragens de jornais. Além disso, eles passaram a competir com o rádio e a televisão, após 1950. Assim, a década de 60 é marcada como a década da crise dos jornais. Foi o impacto do desenvolvimento do rádio e da televisão. Nos anos 70, ocorre a crise do papel, fazendo com que novamente os jornais recuem seus desenvolvimentos. É somente nos anos 80 que a imprensa passa a investir definitivamente em seu crescimento.

Imprensa gaúcha
No Rio Grande do Sul, o primeiro jornal a implantar o jornalismo noticioso foi o Correio do Povo, fundado em 1895 por Caldas Júnior, sergipano que veio para o Rio Grande do Sul ainda criança. Trabalhou como redator-chefe do Jornal do Comércio e, depois de juntar um pequeno capital, montou seu próprio jornal. Naquela época, o tipo de jornalismo promovido no Rio Grande do Sul era o político-partidário, que se estendeu até o Estado Novo.
Por isso, para Caldas Júnior a época era favorável a um jornal sem comprometimento político. E o Correio do Povo, além de adotar esta linha, assumiu uma postura empresarial que lhe garantiu o sucesso, investindo na tecnologia e na administração do jornal. Em 1910, Caldas Júnior montou a primeira impressora rotativa no Estado e, nos anos seguintes, as quatro primeiras linotipos, elevando a tiragem de mil exemplares para 10 mil. Em 1920, a tiragem foi para 20 mil exemplares, configurando, conforme valores da época, o chamado “monopólio da imprensa”.
Para fazer frente ao Correio do Povo, em 1925 surge o Diário de Notícias, tornando-se o segundo maior jornal do Estado. Introduziu um jornalismo moderno, apoiado em campanhas de opinião pública. O forte desse jornal também era o departamento comercial, que levantava grandes volumes de anúncios. Em 1930, o Diário tinha uma tiragem diária de 25 mil exemplares.
Breno Caldas é também responsável por outra revolução na imprensa gaúcha: em 1936, lança a Folha da Tarde, um vespertino, tablóide, formato de jornal que conquistou os leitores gaúchos até os dias atuais.
A partir de 1930, a industrialização no país fomenta o desenvolvimento das empresas jornalísticas, aumentando o público leitor e viabilizando a publicidade, que progressivamente passa a ser a principal fonte de financiamento do jornalismo. A mudança não significou, na época, a neutralidade e imparcialidade dos jornais em relação aos candidatos políticos. O que aconteceu foi apenas a omissão explícita desse interesse. Os donos de jornais gaúchos continuaram defendendo determinados nomes, mas negando publicamente que estariam sendo parciais.
Além da dissimulação da grande imprensa, o desenvolvimento do jornalismo provocou, também, a decadência da imprensa interiorana gaúcha no final dos anos 50 e início dos anos 60, bem como o monopólio da imprensa de Porto Alegre, especialmente em termos de distribuição de verba publicitária.
É somente nos anos 70 que a imprensa gaúcha interiorana e pequenos jornais da capital adotam o jornalismo informativo como método de produção dos periódicos, abandonando o jornalismo de opinião e o colunismo, que vigoraram por várias décadas.
Foi nesse contexto que surgiu em Porto Alegre o jornal comunitário SABIdo. Seu criador, Odemar Marino Ferlauto, era responsável pela comercialização, distribuição e redação do jornal, que tinha periodicidade mensal, formato tablóide, tiragem de 500 exemplares e circulava com número de páginas que variava de 2 a 8. Era impresso na Tipografia Thurman, localizada no bairro Ipanema até a década de 70, período que aconteceu seu fechamento.
A primeira edição do SABIdo circulou com duas páginas; a segunda e demais, com quatro, e em edições especiais, com oito ou mais. Sobre o nome do jornal, Ferlauto (abud CRUZ, 2000) conta que junto a ele, fazendo parte do logotipo, constava a ilustração de um indivíduo com um olho bem aberto, indicando, segundo o idealizador, esperteza, ou seja, o próprio sabido.
Foram os empresários da região que financiaram o custo de produção do jornal, que circulou por quatro anos. Por esta razão, o jornal se sustentava, mas “às vezes faltavam recursos, outras sobravam”, contou Ferlauto (Idem).
As causas do fechamento do jornal, segundo julgamento de seu mentor, foi a estagnação da SABI e a diminuição do tempo dedicado à sua produção pelo próprio Ferlauto, que era servidor público e trabalhava 40 horas semanais, não recebendo nenhuma remuneração para fazer o periódico.

O jornal Colmeia
Outro jornal de bairro que circulou no século 20, antes dos anos 80, período em que ocorre a expansão do segmento , foi o Colmeia, lançado pela Associação Comunitária e Assistencial de Ipanema (ASCAI), mantenedora do Centro Comunitário de Ipanema. O jornal foi fundado em maio de 1967, tendo circulado por aproximadamente um ano e meio na região (também zona sul de Porto Alegre). Fechou com acirramento da censura à imprensa, em 1968.
Em 1960 a população do Brasil havia passado para cerca de 71 milhões de habitantes; a do Rio Grande do Sul para 5,5 milhões, e a de Porto Alegre para 641.173 habitantes. A estimativa para 1967 era de 889 mil habitantes aproximadamente.
Os anos 60 foram marcados por uma profunda crise política e econômica. A crise, que se traduziu num rompimento a nível das classes dominantes, levou o governo – principalmente após a queda de Jânio Quadros – a buscar novamente uma maior aproximação com o movimento operário.
A década é marcada pelo fim das liberdades democráticas e a implantação da ditadura militar, em 1964. Portanto, o ano de fundação da Colmeia estava sob forte pressão do regime militar, prestes a impor ao país o AI 5, ato que fechou o Congresso Nacional, suspendeu as prerrogativas da magistratura, impôs rigora censura à imprensa brasileira e retirou o direito de habeas-corpus para crimes políticos.
O Colmeia também foi obra de Odemar Ferlauto, que, na época, era presidente da ASCAI. A data exata do fechamento do jornal não foi identificada. Seu criador não se lembra e não possui arquivo do jornal. Cruz (2000), no entanto, conseguiu recuperar duas edições: a de número 1, de maio de 1967, e a de número 6, de outubro do mesmo ano, que estavam com um ex-anunciante do Colmeia, Hélio Ricardo Alves, hoje pesquisador da história do bairro Ipanema. Essas edições serviram para uma descrição da produção editorial do jornal e identificação do espírito comunitário da comunidade e das pessoas que participavam da produção do periódico aqui apresentados, através de análise qualitativa.
Os objetivos do jornal, conforme identificamos no Editorial do exemplar de nº 1, eram:
(...) não apenas manter a coletividade de Ipanema ciente dos trabalhos comunitários que se desenvolviam e que seriam promovidos no bairro, mas também integrar toda população no espírito dos propósitos que seriam mantidos para o bem estar do bairro (grifo meu).


E mais adiante, no mesmo editorial, revelando o estilo “comunitário” do jornal, seus propósitos, a linguagem da época, os valores e a posição geográfica, destacam os responsáveis pelo periódico:
(...) As páginas deste mensário estarão abertas e prontas a divulgar todas as boas promoções que se organizarem no bairro e, mais do que palavras, é a confirmação deste propósito, o texto que constitui este primeiro número de lançamento.
Não nos limitaremos à veiculação do que o Centro Comunitário e a ASCAI promovem porque então seríamos exclusivistas e estaria burlada a finalidade que o próprio Centro traz em sua denominação. Nossas intenções são as de amplo congraçamento, de estímulo à união e às iniciativas que tragam endereço claro de favorecimento de Ipanema.
Tão pouco, nos levantaremos para criticar ou obstar o espírito de boa vontade que animará o movimento das Entidades que têm sede no bairro. Seria intromissão indevida, ingerência em negócios alheios e obstrução do livre desenvolvimento de ideais ou de planos. Apenas nos reservaremos o direito de nos omitirmos na publicidade daquilo que contrariar nossa orientação, pois que esta a temos, definida, sadia, objetiva e progressista.
Esperamos, por isso, a compreensão geral, o estímulo para que prossigamos, a crítica, quando construtiva, a colaboração sistemática de medidas que forem aceitas e acolhidas pelo consenso geral.
Tragam suas notícias e as informações de suas atividades e aqui nestas páginas serão estampadas.
Veremos, então, que nosso Jornal será o espelho fiel da comunidade, o reflexo do espírito evoluído de sua população, o atestado de um bairro que deseja e portanto vai progredir com ação dinâmica própria.
Ofereçam-nos, pois, um largo crédito de confiança e tenham a certeza que escrituraremos elevados dividendos a cada um, pelo resultado de nosso trabalho desinteressado e sem meios ou fins personalistas.




Sem poder contar com a plena memória do mentor do Colmeia, a partir dos exemplares recuperados podemos relatar que o jornal circulava mensalmente, com quatro páginas, na zona sul de Porto Alegre, gratuitamente, formato tablóide, impresso na tipografia Thurman, em papel jornal. A tiragem não é conhecida, mas podemos supor, a considerar os custos do jornal, que deve ter iniciado com 500 exemplares, podendo ter passado para mil exemplares, já que, aos poucos, o jornal passou a circular em outros bairros vizinhos à Ipanema, como Espírito Santo, Serraria e Guarujá, neste especificamente no Grupo Escolar Professores Langendonck.
Ao analisar o Colmeia, pode-se verificar muitas semelhanças com os atuais jornais de bairro, no que pese a diferença da linguagem, do estilo de redação, do uso de muitos adjetivos, da presença constante de textos opinativos, da tecnologia e da apresentação do jornal. Mas as pautas abordam os mesmos temas tratados hoje pelos jornalistas de jornais de bairro e os propósitos são bastante semelhantes, especialmente em relação aos jornais de associações de moradores de bairro.
O espaço publicitário do Colmeia era comercializado prioritariamente no próprio bairro, junto ao comércio e profissionais liberais. O exemplar nº 1 circulou com 14 anúncios (muito pouco, considerando o custo do jornal, mesmo naquela época), sendo eles: Importadora de Miudezas Muller, Farmácia Gazola, Veterinário Ivoy Júlio Corseuil, Restaurante Bologna, Irmãos Balestrin, Açougue Ao Calculador, Bar e Chjurrascaria N. S. Lourdes, Banca Central do Mercado Público (o responsável era morador em Ipanema), Posto de Gasolina Belomé, Mon Petit Bar, Armazém Riograndense (sic), Casa Juca Batista, Padaria Ipanema, Fimbreria (sic) Ipanema.
O tamanho dos anúncios variava de 4,5cm x 4,5cm (o menor) para 5cxm x 9,5cm (tamanho cartão de visita, o mais comum), 5,5cm x 9cm (outro tipo de módulo) e 11cm x 9,5cm (o maior de todos).
Os dois exemplares recuperados por Cruz (2000) não circularam com fotografias. Os títulos eram totalmente despadronizados, tanto em relação ao tamanho, quanto ao tipo de letra. Todavia, o tipo de letra utilizado para os textos era padronizado, estilo Times. A diagramação era bastante rudimentar, não apresentando nenhum tipo de recurso gráfico, inclusive o fio, o box e o grisê, muito pouco usados no jornal.
O exemplar de nº 1 do Colmeia traz na sua primeira página o editorial, dentro de um box, duas matérias e um anúncio. Do ponto de vista de recuperação da história do jornal e do segmento que representa, as duas matérias são bastante importes.
A primeira conta “Como nasceu este jornal”, questionamento que também serviu de título da matéria. O texto conta que desde seu lançamento, a Associação Cultural e Assistencial de Ipanema (ASCAI) sempre teve presente a idéia de lançar um jornal para divulgação de suas atividades e da comunidade. Em tendo conseguido seu propósito, os realizadores do periódico registram que “querem ser o porta-voz de tudo o que se realiza no bairro”. E afirmam: “Tanto a SABI a quem prestamos nossa homenagem e agradecemos por ter nos inspirado para realização do jornal, terá aqui lugar para divulgar sua promoções, como todas as entidades do bairro, de qualquer gênero e de qualquer porte, encontrarão aqui guarida para a veiculação do que anseiam e, garantimos, essas notícias chegarão a todos os interessados e irão cumprir suas altas finalidades”.
Diz o texto ainda: “Obedecendo ao espírito moderno do jornalismo, iremos procurar evoluir sempre para melhor, ampliando secções, modernizando, dentro das novas orientações surgidas, nosso noticiário e, se os recursos que para tanto dispuzermos o permitirem, ampliaremos as páginas do Jornal, objetivando mais espaço para informar, informar bem e com fidelidade”.
A segunda matéria de capa conta como aconteceu a escolha do nome Colmeia. O texto não apresenta nenhuma informação diferente do esperado. O editor revela que muitos nomes foram sugeridos e que a escolha foi difícil. Mas, ao final, optaram por Colmeia porque o nome soou de maneira muito agradável. “Com o acréscimo inspirado de um slogan para completar o título – União pelo Trabalho -, nasceu o nome do jornal”.
A página 2 do jornal contém o maior número de anúncios da edição – oito - e três matérias: uma sobre o lançamento da pedra fundamental da sede campestre do Clube do Professor Gaúcho, outra sobre o lançamento de um supermercado comunitário em Ipanema e a terceira, continuação de uma matéria da última página, sobre o Centro Comunitário do bairro. O tipo de texto produzido no jornal é do gênero opinativo, pois contém opinião do autor, em nome da ASCAI, e muitos adjetivos e superlativos. A título de melhor compreensão, reproduzimos, a seguir, o início da matéria sobre o Clube do Professor Gaúcho:
O Centro dos Professores Primários do Rio Grande do Sul lançou uma campanha pioneira no país, que está fadada a alcançar o mais absoluto sucesso, premiando a vasta e laboriosa classe do magistério do Estado.
Foram oferecidos aos Professores títulos patrimoniais do Clube do Professor Gaúcho, que contará com uma ampla e moderna sede social, no centro da cidade, já em construção a sede campestre, aqui no nosso bairro de Ipanema. (...)”. (Colmeia, maio de 1967, p. 2).

Na mesma página em análise – a 2, uma nota do jornal destaca: “Este é o jornal do bairro! É o seu jornal. Ele está sendo lançado para prestigiar seu bairro. Estimule-o e colabore com ele para o sucesso de seus objetivos”. Como se observa, o jornal se autodenomina “de bairro”, além de ser “comunitário”.
A página 3 da primeira edição contém uma vasta matéria sobre atividades do Centro comunitário, contendo um olho , escrito em caixa alta e contendo várias frases sobre o conteúdo do texto, em estilo telegráfico, característica atualmente incomum de se ver em qualquer tipo de jornal. Abaixo o reproduzimos parcialmente:
EXPRESSIVAS SOLENIDADES ASSINALARAM SUA INSTALAÇÃO A 4 DE DEZEMBRO – CERIMÔNIA RELIGIOSA ECUMÊNICA E EXPOSIÇÃO DE ARTE FORAM O PONTO ALTO .
A outra matéria da página 3, intitulada “Uma biblioteca para o bairro”, relata a disposição do Centro Comunitário de pôr em funcionamento uma biblioteca popular. Como diferencial, destaca-se na matéria o uso do pronome “nós”, não comum para época em textos informativos. A terceira matéria destaca o fato do bairro ter passado a possuir água abundante em torneiras, graças à renovação de tubulaturas, realizada pela prefeitura. O autor da matéria parabeniza o DMAE e a Prefeitura e aproveita para reivindicar ao bairro esgoto pluvial e restauração do pavimento de ruas. Três anúncios fecham a página 3.
A página 4, também a contracapa do jornal, contém cinco matérias. Uma relembra as conquistas e atividades realizadas pelos moradores do bairro no mês de dezembro. Outra, reivindica um ginásio para o bairro. A terceira matéria presta conta das atividades da Ascai no mês de dezembro. A quarta matéria relata a festa da Igreja no Centro Comunitário e a quinta matéria, de cunho educativo, esclarece quais as semelhanças e diferenças do Conselho e do Centro Comunitário. Três anúncios fecham a página.
O exemplar nº 6 do Colmeia, publicado em outubro de 1967, traz na capa o Editorial , elogiando a mobilização da comunidade em torno da necessidade de se garantir policiamento no bairro.
A matéria de abertura da capa do Colmeia relata os festejos no bairro dos 250 anos da aparição da imagem da Padroeira do Brasil, já que no bairro localizava-se a única igreja do Estado na época que tinha por padroeira Nossa Senhora Aparecida.
A outra matéria da capa, localizada abaixo da matéria principal, relata atividades do Centro Comunitário de Ipanema, em função de feiras do mel e exposição de coelhos. Ao lado, a divulgação de uma poesia, além de dois pequenos anúncios, dos Irmãos Balestrin e do Galeto Taba.
Na página 2, uma nota intitulada “DA REDAÇÃO”, informa que o jornal passou a ser impresso nas Oficinas Gráficas da Tipografia Thurmann e que recebeu três novos colaboradores da comunidade: o professor João Jacob Bettoni, Derly Weber e Ieda Lichtenberg.
Sob o título “Uma guerra que a todos mobiliza”, Weber escreve sobre a taxa de mortalidade infantil no Brasil e sugere a criação de hortas caseiras para auxiliar a alimentação das crianças. Uma outra matéria, intitulada “Colmeia” se expande, podendo ser classificada como um segundo Editorial, contém informações importantes sobre o progresso do jornal nos seis meses de existência. Por isso, com pequenas omissões de termos desnecessários ou redundantes, reproduzimos a matéria a seguir (COLMEIA, 1967, p. 2):
(...) É inegável a penetração cada vez mais intensa de nossos exemplares. Já conseguimos entrar, despertando o melhor interesse, nas populações de Espírito Santo, Guarujá e Serraria . Deve-se tal sucesso ao trabalho muito bem feito daqueles que estão colaborando na difusão de nossa folha, sendo que, fora de Ipanema, temos distribuído os exemplares de “Colmeia” no Grupo Escolar Professora Langendonck, nos quartéis da Serraria e a diversos residentes do Espírito Santo. É o nosso objetivo. Já dissemos e repetimos: não queremos nos limitar a Ipanema, nossos planos vão diante. Os interesses de Ipanema são os mesmos (...) de Pedra Redonda, Espírito Santo, Guarujá, Serraria e Aberta dos Morros , daí porque queremos chegar até lá.
Mas não param aí nossas pretensões de expandir nosso veículo. Já estamos paulatinamente penetrando também na Tristeza, através de um trabalho mais lento, mas amplamente objetivo e os primeiros resultados são favoráveis.
(...) Todos aqueles que manifestarem interesse em receber Colmeia que se manifestem da maneira que for mais acessível. (...) Quanto maior estímulo tivermos, melhor procuraremos fazer este mensário. Precisamos de pedidos de remessa, de colaborações de tantos quantos tenham assunto digno de divulgação. Necessitamos também de muita publicidade para que possa o jornal se manter. A tônica de nossa solicitação não é a de que a publicidade possa dar resultados imediatos, mas será uma cooperação de subsistência de um órgão que é inédito em toda a cidade: Um jornal de Bairro! (grifo nosso).


Esse texto destaca a exclusividade do jornal na época, confirmando as pesquisas de campo por nós realizadas, que não identificaram a existência de nenhum outro jornal desse gênero na época. Ou seja, o Colmeia se autocaracterizou como “jornal de bairro”.
O terceiro texto da página 2 é de Ieda Lichtenberg, que escreve uma crônica sobre a rotina dos trabalhadores. Sete anúncios tamanho cartão de visita e o expediente completam a página 2. Esse contém as seguintes informações: Colmeia – União pelo Trabalho; Periódico de interesse da Zona Sul de Porto Alegre; Editado pela responsabilidade da “ASCAI” – Associação Cultural e Assistencial de Ipanema, mantenedora do Centro Comunitário de Ipanema; Periodicidade Mensal; Circula ao início de cada mês; Impresso nas Oficinas Gráficas da Tip. Thurman. Rua Gonçalves Dias, 473; Ano I, OUT., 67 , Nº 6.
Com apenas dois anúncios, a página é composta por quatro matérias. Em “Rua Leblon reclama providências das autoridades” o jornal reivindica providências para o destino de efluentes de fossa. “A Criança”, de Celso Guimarães Ferlauto, é uma crônica sobre a infância, em homenagem ao dia 12 de outubro.
Outro texto, intitulado “Uma medida de receptividade de alta expressão”, fala sobre medidas de segurança para o bairro. Dois integrantes da comunidade, após participarem de duas reuniões do Conselho Comunitário, realizaram uma pesquisa no local para o assunto em questão. A matéria apresenta alguns dados do bairro na época, quais sejam: havia 28 moradores em uma das ruas, aquela escolhida para pesquisa, e mais 3 em fase de construção; 19 lotes de terrenos não ocupados por edificações e um prédio para alugar. De veranistas, havia 8 casas, representando 13,11% do total; os prédios em construção representavam 4,9% do total e o número de lotes vagos, 23,75%. Os 28 moradores e veranistas significavam 45,90% do total de prédios da região, ou seja, quase a metade.
Um texto de Zé Forquilha, editado em forma de Coluna, traz cinco notas, reivindicando serviços públicos ausentes no bairro. E a página contém, ainda, um parágrafo, dando continuidade à matéria da página 2, intitulada “Uma Guerra que a todos mobiliza”. Dois anúncios completam a página.
A quarta página, também contracapa, contém quatro anúncios e 3 matérias: uma sobre jantar realizada pela Associação de Pais de Fadas da Ciranda J. Simões Netto; outra, relata as atividades do curso de formação de jovens operários na região, e a terceira, sobre metas da Agência de Serviço Social que funcionava em Ipanema.
A partir da análise do material apresentado, pudemos constatar que a fórmula de produção e administração dos jornais assemelha-se muito às características dos atuais jornais de bairro, especialmente aos que pertencem a Associações de Moradores de Bairro, que possuem funções muito semelhantes às descritas em 1954 e 1967.
Destacamos, ainda, que, dentre tantas definições, a mais adequada para este tipo de jornal, bem como para os atuais jornais de bairro, foi a feita por Janowitz, em Os elementos do Urbanismo (1952) , onde destaca diversas características da imprensa comunitária, através de estudo realizado com os jornais de bairro e segmentados de Chicago(EUA) , citados em Dornelles (2000).


Referências
ASSOCIAÇÃO DE JORNAIS DE BAIRRO DE SÃO PAULO. Disponível em: . Acesso em: 13 fev. 2005.

BAHIA, Juarez. Jornal, História e Técnica. Rio de Janeiro: Ministério da Educação, 1964.

CRUZ, Gustavo. Consolidação dos jornais de bairro em Porto Alegre. Trabalho de conclusão de curso, monografia apresentada em junho de 2000, no Curso de Jornalismo da Famecos/PUCRS, sob orientação de Beatriz Dornelles.

FONTES, Carlos. Breve história do Brasil. Acesso em: 13 fev. 2005. Disponível em: .

DORNELLES, Beatriz. Imprensa comunitária: jornais de bairro de Porto Alegre. In: HAUSSEN, Doris (org.). Mídia, Imagem & Cultura, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000.

FUNDAÇÃO DE ECONOMIA E ESTATÍSTICA (FEE). A política social brasileira 1930-1964 – Evolução Institucional no Brasil e no Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 1983.

JANOWITZ, Morris. Os elementos sociais do urbanismo. 1952. Primeira edição brasileira: Rio de Janeiro: Fórum Editora, 1971.

MARQUES DE MELO, José. A opinião no Jornalismo Brasileiro. Petrópolis: 1994.

MEDEIROS, Laudelino T. A Urbanização no Rio Grande do Sul. In: Veritas, Revista da PUC do Rio Grande do Sul, Primeiro Congresso Brasileiro de Psicodinâmica das Cores, Porto Alegre: Tipografia Champagnat, 1967.

SOUZA, Célia Ferraz; MÜLLER, Dóris Maria. Porto Alegre e sua evolução urbana. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1997.

STENZEL, Clóvis. Problemas da Família Moderna. In: Veritas, Revista da PUC do Rio Grande do Sul, Primeiro Congresso Brasileiro de Psicodinâmica das Cores, Porto Alegre: Tipografia Champagnat, 1967.

Breve reconstituição da trajetória da imprensa gaúcha

Beatriz Dornelles

A reconstituição da imprensa gaúcha no desenvolvimento do jornalismo no Rio Grande do Sul entre 1827, ano em que surgiu o primeiro jornal no Estado - O Diário de Porto Alegre - e os anos 80, década em que se inicia o desenvolvimento tecnológico da imprensa do Interior, foi relativamente bem explorada por historiadores e jornalistas gaúchos.
A bibliografia referente à imprensa do Rio Grande Sul – mais especificamente das décadas de 70, 80 e primeira metade dos anos 90 - é bastante fragmentada, com poucas contribuições de pesquisadores acadêmicos (praticamente todos da UFRGS, exceto um ou outro autor) e muitas produzidas por veteranos jornalistas que buscam registrar suas observações sobre processos que vivenciaram pessoalmente ou testemunharam através de depoimentos de terceiros e por historiadores, que registram basicamente a morfologia dos jornais (dados gerais). São poucas as fontes resultantes de pesquisas documentais.
A origem da imprensa gaúcha encontra raízes no processo político que resultou na Revolução Farroupilha. O primeiro jornal surgiu em 1827, sob o nome O Diário de Porto Alegre, patrocinado pelo presidente da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul, Salvador José Maciel. Nos oito anos que se seguiram ao aparecimento do Diário de Porto Alegre foram lançados 32 jornais, de pequeno formato (28 cm x 18 cm) e tiragens que ficavam em torno de 400 exemplares cada um.
As cidades do Interior pioneiras no surgimento da imprensa são Rio Grande e Pelotas. A periodicidade das publicações dessa época era bissemanária ou trissemanária, sendo poucos os diários. Há registros sobre a existência de 12 diários entre 1850 e 1875, mas com pouca duração. A venda era feita só por assinaturas ou diretamente no escritório da tipografia. A função dos jornais, naquela época, era totalmente política. Os textos eram doutrinários.
Após a Guerra Civil de 1835, ocorre a estagnação da atividade jornalística porque não passava de um meio para divulgação ideológica. As tipografias passam a publicar seus próprios jornais, mas dependendo economicamente do Estado, que controlava a publicidade e a formação da opinião pública, através dos chamados “auxílios” e “subsídios”.
Os jornalistas da época, em geral, eram os donos das tipografias. Eram artesãos especializados que decidiram montar seus próprios negócios. Na época, não tinham um conceito preciso de jornalismo, por isso suas atividades restringiam-se à direção dos periódicos, onde se confundiam as práticas editoriais com prestação de serviços gráficos. A redação, como hoje entendemos, não existia, e os jornais serviam basicamente para veiculação de literatura política.
A tecnologia dos periódicos era primitiva. Os jornais eram editados em velhos prelos de madeira, movidos manualmente, com material tipográfico de segunda mão, adquiridos, na maioria das vezes, no Rio de Janeiro.
Essa mesma imprensa surge na cidade de Pelotas, interior do Rio Grande do Sul, em 1851, através de Cândido Augusto de Mello, que criou O Pelotense. Posteriormente, o mesmo tipógrafo publicou jornais no município de Jaguarão. Em 1861 a imprensa surge em Bagé, fronteira-oeste, com o lançamento de A Aurora e O Bageense.
A partir de 1850, surgem diversos pasquins no Rio Grande do Sul, que se caracterizam pela falta de responsabilidade com os conceitos externados e excessos de linguagem. Os pasquineiros fizeram história e tornaram-se célebres pelos ataques morais e os abusos de linguagem, que criavam desavenças na comunidade e irritavam as autoridades, o que os tornou conhecidos no jornalismo gaúcho.
No mesmo período de expansão dos pasquins surge o jornalismo político-partidário gaúcho. Grande quantidade de tipógrafos assumem cargos políticos e a força de um jornal se estabelece como forma de ascensão política.
Os partidos lançam publicações e surgem as redações propriamente ditas. Neste período aumenta o número de publicações. A tiragem sobe de 400 exemplares, em 1830, para 2.000 no ano de 1900. O formato muda de 28cm x 18cm (menor que uma folha de ofício) para standard, e a fabricação perde o caráter artesanal para passar à manufatura, baseado na tecnologia da máquina a vapor.
A distribuição melhora em conseqüência do progresso dos serviços de correio e das estradas. Os leitores continuam, porém, sendo poucos em função do analfabetismo e do baixo poder aquisitivo, além da vigência do sistema escravagista até 1888. A montagem de uma tipografia e o lançamento de um periódico não era difícil, mas o custo de manutenção das publicações era relativamente alto, em decorrência dos preços do papel, matéria-prima importada, mão-de-obra composta por trabalhadores assalariados e especializados e o porte de circulação.
Apesar do progresso técnico apresentado, os jornais continuavam sendo usados para doutrinação da opinião pública, constituindo-se num prolongamento da tribuna parlamentar e meios de articulação partidária do movimento da sociedade civil, e não visavam lucro.
Estudo realizado em torno da participação da imprensa na campanha abolicionista revelam essa realidade. Estiveram na vanguarda do movimento, entre tantos jornais da época, A Voz do Escravo, de Pelotas, e a Gazeta de Alegrete, fundada em 1882, que, junto com outros, criou um clube de emancipação, levantando fundos e movendo campanhas de alforria, através de suas colunas. Este é o mais antigo jornal em circulação hoje, no Rio Grande do Sul.
Em 1869, ocorre no Estado novo marco do jornalismo político-partidário, com o lançamento do jornal A Reforma, órgão do Partido Liberal. O principal diretor desta folha era Silveira Martins, líder do Partido Liberal, que chegou a imprimir 20 mil exemplares em uma das edições, distribuídos gratuitamente por todo o Estado.
Após o surgimento de A Reforma, surgiram dezenas de folhas político-partidárias, destacando-se no Interior O Conservador, publicada pelo partido do mesmo nome, que sustentou a doutrina da agremiação de 1879 até a Proclamação da República. O Diário de Pelotas (1867-89) desempenhou papel de liderança entre os liberais da zona sul do Estado. O Diário do Rio Grande (1848-1911) e O Echo do Sul (1856-1937), da mesma cidade, tiveram significativa participação oposicionista durante a República Velha.
O Partido Republicano foi responsável pelo lançamento de diversos jornais importantes durante essa época, estando, entre eles, O Diário Popular, de Pelotas, que circula até hoje. Ele compõe a amostra utilizada neste trabalho, ajudando a revelar como se encontrava a imprensa interiorana no final do século 20.
Após a Proclamação da República, aumenta a violência política através do jornal, objetivando calar a voz da oposição, período difícil para o exercício do jornalismo. Pratica-se censura policial direta nas redações, ocorrendo a prisão de diversos jornalistas e o fechamento de várias folhas na capital e no Interior.
Esta situação perdurou até a década de 30, época do Estado Novo, quando também desaparece o jornalismo político-partidário. O último grande jornal do gênero a ser lançado no Rio Grande do Sul foi O Estado do Rio Grande, em 1929, órgão do Partido Libertador, que sucedeu ao Partido Federalista, fechado em 1932 pelo Estado Novo, que aboliu oficialmente os partidos políticos e decretou o fechamento de diversos jornais.
As folhas sobreviventes adaptam-se aos novos tempos e mudam a linha editorial. Passam simplesmente a informar os fatos ou adotam uma postura oficialesca. O jornalismo noticioso gaúcho, que se inicia na segunda metade do século 19, entra em ascensão, no Estado, com o Correio do Povo, fundado em 1895.
Surge, paralelamente, o jornalismo literário independente, como alternativa ao jornalismo político-partidário. Estes dois novos estilos de jornalismo rompem, aos poucos, com as doutrinas partidárias e especializam-se na difusão de notícias e na discussão de assuntos da atualidade sem compromisso doutrinário.
O apogeu do jornalismo literário-noticioso aconteceu entre 1890 e 1920, época em que se multiplicaram os jornais comprometidos com o modelo noticioso no Rio Grande do Sul. Nesse período, muitos tipógrafos transformaram-se em pequenos empresários.
A época artesanal já havia sido superada e a imprensa baseava-se na máquina a vapor. Houve renovação na circulação, com o aumento da venda avulsa e distribuição dos jornais no Interior, através da rede ferroviária. Ocorreu, ainda, a modernização do parque gráfico, o que permitiu o aumento das tiragens e do número de páginas dos jornais, que pula de quatro (tradicional no século passado) para 12 nos primeiros anos do século.
A paginação tornou-se mais leve, com melhor distribuição das matérias, as cores passam a ser usadas nos títulos, em assuntos de destaque e nas ilustrações, substituídas pelas fotografias a partir de 1910.
Conforme os registros históricos, o processo de organização do novo grupo de jornalistas segue os passos de sua própria consolidação como categoria social. Em 1889, com o propósito de evitar, entre colegas, agressões pessoais que abalam a imprensa, surge a Associação dos Jornalistas de Pelotas. Dez anos depois, com proposta semelhante, é fundado o Grêmio dos Jornalistas de Rio Grande.
Nos anos 10, surge o primeiro projeto de agrupar os jornalistas de todo o Estado com o Círculo da Imprensa, que funcionou em Porto Alegre, de 1911 a 1914. Porém, o esforço mais significativo para congregar e organizar a classe ficou registrado com a fundação da Associação Riograndense de Imprensa (ARI), em 1920. Realizou relevantes serviços à categoria, mas anos depois a entidade se dissolveu.
Nesse período, a notícia, como entendemos hoje, surge no jornalismo, substituindo as matérias de cunho literário, que se baseavam em comentários pessoais, e toma conta das páginas dos jornais, inclusive do noticiário político.
Na mesma época, os jornais passam a contar com serviços noticiosos provindos das agências internacionais. Na década de 10, os principais jornais do Estado fecharam acordos com as agências Havas, Americana e Transocean.
Apesar da tentativa de se tornarem independentes, noticiosos e imparciais, os jornais do início do século não conseguiram se desvencilhar dos partidos políticos e continuavam sustentando a campanha deste ou daquele político. A independência dos jornais dependia de fontes de financiamento e, na época, elas eram muito limitadas. Tanto que, conforme dados do Anuário do Rio Grande do Sul de 1885, do Departamento Nacional de Estatística, 80% dos jornais gaúchos apresentavam tiragem de até 5 mil exemplares em 1930; de 5 mil a 10 mil, 12%, e de 10 mil a 30 mil, 8%. Portanto, sem independência econômica, não havia condições de se conquistar a independência editorial, especialmente na área política, e, principalmente, porque os jornais não estavam estruturados como empresas jornalísticas. Somente quando os periódicos tornam-se empresas jornalísticas é que o jornalismo noticioso realmente firma-se na imprensa gaúcha.
O primeiro jornal a implantar o jornalismo noticioso foi o Correio do Povo, fundado em 1895 por Caldas Júnior. Caldas era sergipano e veio para o Rio Grande do Sul ainda criança. Trabalhou como redator-chefe do Jornal do Comércio e, depois de juntar um pequeno capital, montou seu próprio jornal.
A época era favorável a um jornal sem comprometimento político. E o Correio do Povo, além de adotar esta linha, assumiu uma postura empresarial que lhe garantiu o sucesso, investindo na tecnologia e na administração do jornal.
Em 1910, Caldas Júnior montou a primeira impressora rotativa no Estado e, nos anos seguintes, as quatro primeiras linotipos, elevando a tiragem de mil exemplares para 10 mil. Em 1920, a tiragem foi para 20 mil exemplares, configurando, conforme valores da época, o chamado “monopólio da imprensa”.
Para fazer frente ao Correio do Povo, em 1925 surge o Diário de Notícias, tornando-se o segundo maior jornal do Estado. Introduziu um jornalismo moderno, apoiado em campanhas de opinião pública. O forte desse jornal também era o departamento comercial, que levantava grandes volumes de anúncios. Em 1930, o Diário tinha uma tiragem diária de 25 mil exemplares.
Breno Caldas faz uma outra revolução na imprensa gaúcha, em 1936, quando lança a Folha da Tarde, um vespertino, formato tablóide, que conquistou os leitores gaúchos até os dias atuais.
Em 1936, também foi reconstruída a Associação Riograndense (sic) de Imprensa, tendo como presidente o jornalista Erico Verissimo. A entidade ressurge lutando pelo novo estatuto do jornalista na sociedade e a criação do Sindicato dos Jornalistas, o que aconteceu em 1942.
A partir de 1930 o Brasil vive uma nova fase, a da industrialização, que fomenta o desenvolvimento das empresas jornalísticas, aumentando o público leitor e viabilizando a publicidade, que progressivamente passa a ser a principal fonte de financiamento do jornalismo.
A mudança verificada no jornalismo, entretanto, não significou, na época, a neutralidade e imparcialidade dos jornais em relação aos seus candidatos políticos. O que aconteceu foi apenas a omissão explícita desse interesse. Os donos de jornais continuaram defendendo determinados nomes, mas negando publicamente que estariam sendo parciais.
Além da dissimulação da grande imprensa, o desenvolvimento do jornalismo provocou, também, a decadência da imprensa interiorana no final dos anos 50 e início dos anos 60, bem como o monopólio da imprensa da capital, especialmente em termos de distribuição de verba publicitária.
A falta de sustentação econômica no Interior, nos anos 60, não permitiu que grande parte dos jornais se transformassem em empresa jornalística, conforme RÜDIGER (1993). Entre 1970 e 1973, os diretores da Associação dos Jornais do Interior do Rio Grande do Sul (Adjori), fundada em 1963, fizeram intensiva campanha junto aos sócios. Exigiram deles o Alvará da Prefeitura, o registro do jornal no Livro Especial em Cartório, o registro jurídico da empresa na Junta Comercial e o registro do nome e marca do jornal no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI).
Nesse período, praticamente todos os sócios da ADJORI (207 no total) passaram a constituir empresas jornalísticas, tendo por objetivo a produção, edição e comercialização de jornais. As menores, em forma de empresa individual, e as médias e grandes, como sociedade limitada, composta por dois ou mais sócios.
Posteriormente, com a aprovação da Lei das Microempresas, ao longo da década de 90 os jornais semanários (com receitas inferiores a R$ 20 mil mensais), transformaram suas empresas em microempresas, sendo favorecidos pelo reduzido índice de pagamento dos impostos.
É somente nos anos 70 que a imprensa gaúcha interiorana adota o jornalismo informativo como método de produção dos periódicos, abandonando o jornalismo de opinião e o colunismo. Um grande número de proprietários de jornais do Interior procura as universidades para cursarem as Faculdades de Jornalismo do Rio Grande do Sul. Paralelamente, máquinas offset de impressão são instaladas em cidades de grande e médio porte do Estado, como, por exemplo, Caxias do Sul, Novo Hamburgo, Pelotas, Venâncio Aires, Santo Ângelo, Santa Cruz do Sul, Santa Maria, Sarandi, Passo Fundo, entre outras .
Nos anos 90, novamente os jornais gaúchos passam por uma revolução. Todas as redações, pequenas, médias e grandes, substituem as máquinas de escrever por computadores e a diagramação passa a ser feita eletronicamente, exceto o jornal O Taquaryense, que até hoje continua sendo impresso em linotipia e produzido em máquinas de escrever manual .
A atualização de inventários e resenhas sobre o Jornalismo foi feita em dezembro de 1990, pelo bolsista de iniciação científica de Jornalismo da Famecos/PUCRS, Manuel Luís Petrik Pereira, em parceria com o pesquisador Jacques Wainberg, da Pós-Graduação da mesma faculdade. O estudo rastreou obras de 1983 a 1997, tendo encontrado 186 livros publicados em 14 anos.
Segundo os pesquisadores, nos livros predominam os estudos históricos, seguidos de Ensino do Jornalismo e Teoria do Jornalismo. Surpreendente foi a constatação de forte presença de estudos relativos ao jornalismo alternativo, ao jornalismo político e ao tratamento dos dilemas éticos da profissão. Demais categorias ocupam papel secundário na produção bibliográfica. Cabe assinalar que o número de instituições com programas de pós-graduação em comunicação aumentou muito na década de 90 e tende a crescer ainda mais no futuro. Essa realidade é relevante considerando o fato de que são tais programas os principais fomentadores de pesquisas relativas ao jornalismo.

Tal realidade é responsável pela edição de cerca de 180 livros em 10 anos, período que vi da segunda metade dos anos 90 aos primeiros cinco anos do século 21, produzidos especialmente por pesquisadores e professores das Pós-Graduações e das Faculdades em Comunicação da UFRGS, Ulbra, Unisinos e PUCRS, além de novos historiadores da área.
Os temas mais recorrentes são praticamente os mesmos levantados por Wainberg, quais sejam: História do Jornalismo, Ensino do Jornalismo, Teoria do Jornalismo, Memória, Jornalismo Alternativo, Ética do Jornalismo, Jornalismo Organizacional, Jornalismo e Política, Jornalismo Internacional, Linguagem e Tecnologia do Jornalismo, Jornalismo e Empresas de Comunicação, Direito da Comunicação, Jornalismo e Ciência, Jornalismo e Economia, Jornalismo do Interior, Comunicação Comunitária, entre outros de menor expressão.

IMPRENSA COMUNITÁRIA:JORNAIS DE BAIRRO DE PORTO ALEGRE

IMPRENSA COMUNITÁRIA:
JORNAIS DE BAIRRO DE PORTO ALEGRE


A “imprensa comunitária” já é estudada nos Estados Unidos há, pelo menos, 50 anos. No Brasil, há poucos pesquisadores voltados sistematicamente para este setor, por isso temos grande dificuldade para encontrar bilbiografia adequada. No entanto, o fênomeno americano apresenta muitas semelhanças com o brasileiro. Nesse estudo, propomo-nos a estabelecer as características de um dos segmentos da imprensa comunitária – os jornais de bairro de Porto Alegre, valendo-nos da bibliografia norte-americana, especialmente a tratada por JANOWITZ .
Segundo o sociólogo norte-americano, a comunidade urbana abrange um processo de comunicações e um sistema de valores. Subentende sentimentos e ligações a uma área geográfica, não importando a sua transitoriedade ou complexidade.
Em 1999, em Porto Alegre, cidade com 1,5 milhão de habitantes, havia aproximadamente 18 jornais de bairro circulando , mas nos últimos quatro anos (1995-1999) pôde-se registrar a circulação de 50 jornais do gênero. O que estará acontecendo neste setor? É a imprensa comunitária inviável na capital gaúcha?
Nos Estados Unidos verificou-se que o aumento do número de jornais e da circulação reflete maiores recursos econômicos e níveis altos de alfabetização. Além disso, a posição econômica da imprensa comunitária foi fortalecida pela renda publicitária mais adequada. Os serviços de utilidade pública, nos Estados Unidos, também passaram a amparar a imprensa comunitária. E no Rio Grande do Sul?

1.1. O BAIRRO

Várias são as definições de bairro, que vão desde a área geográfica até a delimitação por grupos de afinidade comportamental. Preferimos trabalhar com a definição de MAYOL :
“O bairro pode ser considerado como a privatização progressiva do espaço público. Trata-se de um dispositivo prático que tem por função garantir uma solução de com-tinuidade entre aquilo que é mais íntimo (o espaço privado da residência) e o que é mais desconhecido (o conjunto da cidade ou mesmo, por extensão, o resto do mundo).

O jornalista do bairro tem que cumprimentar a todos, não pode se indispor com nenhum grupo, deve manter seu código de ética impecável, deve defender todos os interesses que têm o consenso da comunidade local, mesmo que, pessoalmente, tenha posição divergente. Os moradores com prestígio e liderança do bairro esperam que o jornalista garanta-lhes a honra e a moral pública. Ataques gratuitos são inadmissíveis.
A comunidade espera que o jornalista, a qualquer momento, prestigie os que vivem no anonimato. Querem uma chance de sair no jornal, nem que seja no dia do aniversário, do casamento, do batizado, da formatura, do baile, etc.
A relação comercial do jornalista com seus anunciantes é mais sentimental do que racional. Alguns querem anunciar para “ajudar o jornalista”; outros querem utilizar o veículo para apresentar seus produtos e promoções à coletividade. A forma de pagamenteo, no entanto, é sempre afetiva. “Volta na semana que vem, pois não entrou dinheiro ainda”, dizem os anunciantes na hora do pagamento, ignorando o acerto inicial. Por outro lado, quando o jornalista está “apertado”, pode apelar para o mesmo expediente e pedir para que alguns anunciantes antecipem o pagamento do anúncio.

2.CARACTERÍSTICAS DOS JORNAIS COMUNITÁRIOS

Tendo definido alguns conceitos sobre a imprensa comunitária e sobre o bairro, passaremos para a definição do conceito, caracterísitcas e números de jornais de bairro de Porto Alegre.
Para este estudo, investigamos e localizamos 43 jornais comunitários , em circulação constante ou ocasional no ano de 1995, denominados “de bairro” por seus proprietários porque, segundo definem, “visam atender às necessidade de informação de uma população concentrada em um ou mais bairros”.
Três exemplares de cada jornal mensal, de meses alternados, foram analisados editorialmente. Os proprietários foram entrevistados, objetivando o levantamento de dados administrativos.
Várias características encontradas, expostas a seguir, demonstram que muitos dos jornais de bairro não praticam adequadamente o “jornalismo comunitário”, basicamente porque o conteúdo do jornal exclui o dia-a-dia e os conflitos da comunidade alvo. A maioria dos jornais de bairro encontrados é clandestina, por não possuir registro no Cartório de Registros Especiais, conforme determina a Lei de Imprensa. Outro desvio legal é a inexistência de jornalista responsável pela publicação, segundo determina a Regulametnação da Profissão de Jornalista. Mais de 50% dos jornais são produzidos por amadores.
Neste estudo, entendemos como “jornal comunitário” aquele que representa uma grande série de atividades, valores e aspirações presentes na comunidade e que não são expressas na imprensa diária. Ele fornece um fluxo de notícias específicas para ajudar na adaptação às instituições e comodidades da vida urbana e interpretar, num contexto significativo e afetivo, os acontecimentos externos que são importantes para a comunidade alvo. Caracteriza-se, também, por possuir distribuição gratuita.

2.1 Levantamento

Concomitantemente à redução do número de jornais diários em Porto Alegre e ao avanço da tecnologia, surgem jornais de bairro em todas as zonas de Porto Alegre, a pon-to de circularem 43 jornais desse gênero entre 1995 e 1996, todos impressos em offset e produzidos em computador.
Destaca se que há uma maior concentração dos jornais de bairro nas zonas norte e sul de Porto Alegre. A distribuição dos 43 jornais de bairro é gratuita. Alguns são entre-gues para a maioria das residências do bairro, outros circulam apenas em pontos comer-ciais. Esses periódicos, excetuando o mais antigo deles, o Oi!, que circula no bairro Me-nino Deus, têm grande dificuldade para comercializar anúncios, o que ocorre especial-mente junto aos pequenos e médios comerciantes do bairro. Dificilmente as agências de publicidade de Porto Alegre investem nesse segmento do jornalismo, assim como os ór-gãos públicos do governo estadual, que concentra suas verbas nas três maiores empre-sas de Porto Alegre: RBS, Caldas Júnior e Jornal do Comércio.
Essa característica provoca a centralização da disseminação das informações por três empresas, resultando no que os leitores costumam chamar de “manipulação da in-formação”. No entanto, entendemos que existe a “manipulação da verba publicitária”, e não da informação, disseminada por inúmeros outros veículos, porém sem grandes recur-sos para realizar trabalhos de grande qualidade, mas não por isso sem valor.
Quase todos os jornais de bairro funcionam na própria casa do proprietário e não têm funcionários com vínculo empregatício em nenhuma das áreas existentes em empre-sas jornalísticas de maior porte: administrativo, comercial, produção e circulação. Em de-corrência da pequena receita dos jornais, seus proprietários, quando necessitam, contra-tam free-lanceres. Pela mesma razão, é grande o número de colaboradores.
Em 27 jornais de bairro (62,7%) predominam nas páginas os releases enviados por órgãos públicos municipais e estaduais e por algumas instituições que mantêm contato permanente com os jornais de bairro, através das assessorias de imprensa, como as uni-versidades e instituições culturais, sendo raríssima a presença de reportagens e entrevis-tas. Os releases são aproveitados na íntegra e raras vezes funcionam como pauta. As reportagens aparecem em 28 jornais de bairro, mas não representam a principal marca do jornal. Em muitos casos elas são ocasionais.
Outra característica de grande parte dos proprietários de jornais de bairro é sone-gar a receita publicitária de seus periódicos por vergonha, medo dos concorrentes, temor que a informação prejudique o jornal de alguma forma e para evitar a pressão dos colabo-radores.
Também, é sabido que até 1998 praticamente todos os proprietários de jornais de bairro declaravam ter uma tiragem maior do que a verdadeira para terem maior força de negociação junto aos anunciantes . Sendo assim, na época da pesquisa, recusaram se a apresentar um comprovante da tiragem do jornal, que também não é fornecida pelas grá-ficas. Os jornais de bairro são impressos nas seguintes gráficas: Grande Sul, Zero Hora, Pioneiro (Caxias do Sul), Jornal do Comércio, Gazeta do Sul (Santa Cruz do Sul) e Corag.
A distribuição dos exemplares de quase todos os jornais de bairro é feita pessoal-mente por seus proprietários, com o uso de seus veículos. Contam com a ajuda de famili-ares, amigos e, em vários casos, de alguns meninos, que, em média, ganham R$ 20,00 por dia de trabalho. O jornal Oi!, até 1996, era o único que possuía veículo próprio e en-tregadores com vínculo empregatício. A entrega domiciliar é uma política de distribuição da minoria dos jornais de bairro.
O maior problema enfrentado por todos os jornais de bairro até hoje é a comerciali-zação. Não se encontra no mercado porto alegrense pessoas gabaritadas ou dispostas a vender anúncios para os periódicos. Alguns proprietários de jornais comunitários dizem que o problema está na impossibilidade dos jornais pagarem uma ajuda de custo para os vendedores. Os 20% de comissão oferecidos a eles não é suficiente para que levantem um salário satisfatório a suas necessidades.

2.2 Características particulares

O mais antigo jornal de bairro, sem interrupção na circulação, é o Oi!, fundado pelo jornalista Geraldo Canali, em 15 de dezembro de 1985, em formato tablóide, 20 páginas (em média), duas cores na capa e contracapa, mensal, totalmente computadorizado, im-pressão offset, o único com homepage na Internet , sede própria, carro, equipe de circu-lação, formada por seis jornaleiros que usam uniforme com a marca do jornal (camiseta e boné), equipe de publicidade e jornalistas da grande imprensa. Tiragem: 22 mil exempla-res, distribuídos no bairro Menino Deus, que, conforme dados do IBGE, censo de 1996, tem uma população de 28.396 habitantes e 10.400 dormitórios particulares (Tabela com a população dos bairros porto-alegrenses por onde circulam jornais de bairro no item 2.4).
Em março de 1997, Canali vendeu o Oi! para o jornalista Hélio Gama, que imple-mentou quatro cores na capa e contracapa do jornal e descaracterizou a linha editorial imposta pelo fundador, que praticava o jornalismo de denúncia, através da grande repor-tagem de temas não trabalhados pela imprensa diária. Até 1996, o espaço comercial do Oi! era comercializado a R$ 15,25 o cm/col.
Os jornais Humaitá e Cidade Norte são os mais antigos. Foram fundados em 1984, quase um ano antes do Oi!. O primeiro pela Associação dos Moradores do Bairro Humai-tá, e o Cidade Norte, pelo jornalista Camilo Cerilo Simon.
O jornal Humaitá circulou até 1996, quando fechou. Tinha oito páginas, periodici-dade mensal, tiragem de 5.000 exemplares, preto e branco e formato tablóide. Circulava nos bairros Humaitá, Navegantes, Vila Farrapos e São Geraldo. A distribuição era gratuita e a receita do jornal dependia totalmente da venda de publicidade. O cm/col desse perió-dico era comercializado a R$ 5,00 e não trabalhava com assinatura. O responsável pelo jornal era o presidente da Associação de Moradores do Bairro Humaitá, com sede na A-venida Palmira Gobbi, 883, Porto Alegre/RS. O jornal era distribuído em pontos comerci-ais e locais de grande concentração de moradores, como escolas e clubes.
Na zona norte de Porto Alegre, circula até hoje o Cidade Norte, fundado no dia 30 de março de 1984, pelo jornalista Camilo Cerilo Simon. Com 12 páginas, este jornal re-presentou uma exceção no conjunto dos 43 jornais de bairro, juntamente com o jornal Zo-na Norte, porque ambos eram semanários (grifo da autora). Passaram a mensais em 1998 em decorrência da queda na comercialização dos anúncios.
Até 1997, dependendo da quantidade de anúncios vendidos, o Cidade Norte circu-lava com 16 páginas. O preço do cm/col era R$ 5,00 e o jornal era distribuído gratuita-mente em pontos comerciais de alguns bairros da zona norte de Porto Alegre. Sua tira-gem variava de 7 mil a 15 mil exemplares, dependendo da receita publicitária do mês. A partir de 1998 o Cidade Norte passou a circular com 8 páginas e 10 mil exemplares. O cm/col passou a ser comercializado a R$ 8,00. No entanto, não mantém regularidade em sua circulação, sendo distribuído de dois em dois meses e às vezes três meses depois da última circulação, apresentando sérias dificuldades para comercializar seu espaço.

Em 1986, surgem mais dois jornais: O Cristóvão , em circulação até hoje, e o Jar-dim Floresta, fechado em 1996. A Associação do Bairro Floresta é responsável pelo lan-çamento do jornal O Cristóvão, hoje entregue ao jornalista Mário Rocha, também presi-dente da instituição. Não há registro na entidade sobre a data exata de seu lançamento. Características: 12 páginas, cor na capa e contracapa, tablóide, mensal, um jornalista responsável por toda produção do jornal, venda de anúncios, impressão e distribuição. O preço do cm/col de O Cristóvão, conforme tabela de 1995, era de R$ 6,85. Hoje o mesmo espaço é comercializado a R$ 10,00. A tiragem é de 10 mil exemplares, entregues nas residências do bairro Floresta.
O jornal Jardim Floresta foi fundado pela Associação Comunitária dos Moradores do Jardim Floresta de Porto Alegre, em 1996, e fechou em 1998. Nunca contou com jor-nalistas para sua produção. Era um jornal modesto, bimestral, que objetivava divulgar o trabalho dos dirigentes da entidade em prol da comunidade. Sua tiragem era de 2.000 exemplares e circulava no Cristo Redentor.
O preço do cm/col era menor que R$ 1,00, pois a venda era feita a título de colabo-ração com a Associação. A distribuição era gratuita, formato tablóide e estava sob a res-ponsabilidade do presidente da Associação. O Jardim Floresta era distribuído em alguns pontos comerciais e locais públicos do bairro.
Em 1987, surgem o Alto Petrópolis e o Jornalecão, ambos em circulação até hoje. O Jornalecão foi fundado em 10 de maio de 1987, por iniciativa de Gustavo Cruz da Sil-veira, quando tinha 11 anos de idade. Atualmente, cursa a Faculdade de Jornalismo da PUCRS.
O Jornalecão tem 16 páginas, é mensal, tiragem de 18 mil exemplares e circula na zona sul de Porto Alegre. Conta com um jornalista para produção das matérias. Este ta-blóide é produzido na casa do proprietário. O cm/col interno desse jornal era comerciali-zado até 1995 a R$ 8,00. Hoje, com cor na capa e contracapa desde 1996, o mesmo es-paço custa R$ 12,00. Sua impressão é feita na gráfica do jornal O Pioneiro, de Caxias do Sul, pertencente ao grupo RBS.
A distribuição do Jornalecão é feita gratuitamente em pontos comerciais da zona sul e nas esquinas de ruas principais da região. Ao longo dos anos, ele também conquis-tou cerca de mil assinantes.
O jornal Alto Petrópolis foi criado pelo jornalista Andi Ferreira Alves. Suas caracte-rísticas são: mensal, 8 páginas, cor na capa e contracapa, tablóide, distribuição gratuita, não trabalha com assinantes, impressão offset. A tiragem é de 3.000 exemplares, distribu-ídos na quase totalidade em um único condomínio da região. A cor foi introduzida no jor-nal em 1999. O cm/col era comercializado em 1996 a R$ 4,00. Hoje, com cor na capa e contracapa, o cm/col custa R$ 8,00.
Já Bom Fim era uma publicação quinzenal, e, de certa maneira, diferenciada das demais. Pertence à empresa Já Editores, do jornalista Elmar Bonis da Costa, também escritor de livros, que tem investido nessa área desde 1985. Atualmente circula com o nome de Já, tendo sido fundido com outros três jornais do mesmo jornalista em 1998.
O Já Bom Fim foi fundado em 1º de julho de 1985, em formato tablóide. Em março de 1996 passou para standard, oito páginas, duas cores, tiragem de 10 mil exemplares, distribuição gratuita. O jornal trabalhava com assinantes, mas também não teve sucesso com este projeto. O preço do cm/col em 1995 era de R$ 10,70.
Em julho de 1989 surgiu o CS Zona Sul, fundado por Daniel da Motta Dutra . Quinzenário, 16 páginas, tablóide, esse jornal circula em pontos comerciais de 10 bairros da zona sul, conforme declaração do proprietário fundador, em entrevista realizada pela autora em abril de 1996. A tiragem do jornal, segundo o proprietário, é de 15 mil exempla-res por quinzena. A zona sul tem 61.409 moradias. Em 1996, o CS Zona Sul tinha um jornalista , distribuição gratuita. O espaço publicitário era comercializado a R$ 7,00 o cm/col.
Em 1990, surgiu A Palavra do Bairro, por iniciativa da Associação dos Moradores do Bairro São João, sob responsabilidade do presidente da entidade. No expediente do jornal, aparecia o nome do jornalista Mílton Simas Júnior, que morava em Caxias do Sul, cidade localizada na serra gaúcha, e emprestava seu nome para constar no expediente do jornal. No ano de 1997, a jornalista Nádia Leal Donini assumiu a edição do jornal, mas, a baixa comercialização, forçou o fechamento do jornal em outubro do mesmo ano. A Pa-lavra do Bairro circulou com 12 páginas, distribuição gratuita, tablóide, tiragem de 8 mil exemplares e distribuição residencial.
Também em 1990 foram lançados os jornais 4º Distrito e Menino Deus Assamed, este fazendo concorrência com o Oi!. O 4º Distrito foi fundado por Adriano Berao Costa e deixou de circular em 1996. Este jornal não possuía número de páginas fixas. Tablóide, circulou com, no mínimo, 8 páginas e, no máximo, 20 páginas, dependendo da venda de anúncios do mês. A tiragem deste mensário totalizava 10 mil exemplares, distribuídos gra-tuitamente nos pontos comerciais dos bairros São Geraldo, Navegantes, Passo da Areia, Santa Maria Goretti e São João, todos na zona norte da cidade. Costa não possuía ne-nhum funcionário em sua empresa. Trabalhava com colaboradores.
No início de 1995, Costa fez uma experiência com seu mensário, transformando o em standard. No final daquele ano, realizou uma pesquisa com seus leitores e anuncian-tes, verificando que 80% desejavam que o jornal fosse tablóide. Entre os jornalistas, veri-ficou que a proporção era inversa: 80% indicavam o standard como melhor formato. Em 1996, Costa transformou seu jornal em tablóide.
O cm/col do 4º Distrito era de R$ 8,00 e sua produção era feita por computador. Os pequenos e médios comerciantes dos cinco bairros onde circulava eram os principais a-nunciantes do mensário. Os cinco bairros contam com uma população de 46.107 habitan-tes e 16.202 moradias.
Também em 1990 surge o Menino Deus Assamed, por iniciativa da presidente da Associação dos Amigos e Moradores do Bairro Menino Deus (Assamed), na época sob o comando de Geci da Silva Fioravante. Este mensário surgiu por questões políticas e fa-zendo concorrência ao Oi!, criado na região em 1983.
Tablóide, 8 páginas, duas cores (preto e azul), distribuição gratuita e tiragem entre 10 mil e 15 mil exemplares, o Menino Deus Assamed conta com um jornalista responsá-vel. O cm/col negociado por este jornal em 1996 estava em torno de R$ 3,00, enquanto, no mesmo período, seu concorrente trabalhava com o cm/col da página indeterminada em R$ 15,00.
Em 1992, aparecem mais três jornais de bairro: o Cidade Baixa, na Cidade Baixa, o Destak, nos bairros da zona sul, e O Bairro, na Cidade Baixa e Santana. O primeiro, fundado por Antônio Soares e Santa Inese Soares, proprietários de uma editora de livros, sempre circulou sem a colaboração de nenhum jornalista e sendo produzido em condi-ções precárias.
Tablóide, mensário, 12 páginas, uma cor, o Cidade Baixa, com circulação bastante irregular, era distribuído em apenas alguns pontos comerciais do bairro, especialmente nos supermercados da área, tendo uma tiragem de 2.000 exemplares. Somente uma pes-soa realizava a comercialização do jornal e a receita apenas era suficiente para cobrir o custo industrial. Este jornal deixou de circular no início de 1998. O cm/col do Cidade Baixa era comercializado, em média, a R$ 5,00 a página indeterminada e, muitas vezes, tam-bém espaços na capa eram vendidos por esse valor.
O jornal Destak foi fundado por Ricardo e Lídia Bartezen, e circula mensalmente até hoje com 12 páginas, às vezes, 16 páginas, na zona sul de Porto Alegre. A tiragem do Destak passou de 3 mil exemplares para 6 mil em junho de 1999. Ele é distribuído gratui-tamente em alguns pontos comerciais, não havendo entrega domiciliar.
Até junho de 1999, o Destak se autodefinia publicamente como “Informe Publicitá-rio”. A partir dessa data, sob influência da Associação dos Jornais de Bairro de Porto Ale-gre, sofreu profundas modificações, havendo uma melhora significativa em sua linha edi-torial. Um jornalista e um editor eletrônico foram contratatos e passou a ser impresso pela Zero Hora em quatro cores na capa, contracapa e central. A comercialização era feita pe-los proprietários a R$ 5,00 o cm/col.
O Bairro, atualmente fora de circulação, foi fundado por Ricardo Teixeira, com oito páginas, mensal, distribuição gratuita, 4 mil exemplares, sem jornalista na produção, uma cor, impresso no Jornal do Comércio. A comercialização do cm/col era feita a R$ 3,90. O jornal contava apenas com um colaborador e objetivava comercializar anúncios. Ocasio-nalmente este jornal é visto em estabelecimentos comerciais de diferentes bairros.
No ano de 1993 surgem três jornais de bairro, dois na zona norte e um no bairro Azenha. São eles: Norte Notícias, Zona Norte e Jornal Azenha. O Norte Notícias foi fun-dado por Daniela Peretti e Mauro Ricardo Graziadei. Tablóide, mensário, 12 páginas, cir-culava nos bairros Cristo Redentor, Vila Ipiranga, Jardim Itu Sabará, Passo da Areia, Jar-dim Lindóia, São Sebastião, Vila Floresta, Boa Vista e Três Figueiras. Deixou de circular em 1997. Sua tiragem era de 12.000 exemplares.
O Zona Norte, fundado por Luiz Fernando Gonzalez Rosa da Silva, em circulação até hoje, passou de semanário para mensário em 1999. Com 12 páginas, 7.000 exempla-res de tiragem, é elaborado e comercializado pelo proprietário em sua residência. O cm/col da página indeterminada é comercializado a R$ 7,00 desde 1996. A distribuição tem periodicidade irregular e é feita, gratuitamente, em pontos comerciais das principais avenidas da zona norte.
O Azenha é de propriedade do jornalista e fundador Jodoé de Souza e circula até os dias atuais, com duas cores na capa e contracapa. Até julho de 1997, este mensário circulava com 12 páginas, formato tablóide, uma cor. A tiragem totaliza 5.000 exemplares. O Azenha, em 1995 e 1996, era comercializado a R$ 5,00 o cm/col.
Quatro novos jornais aparecem em 1994: O Farol, Jornal do Bairro, Taí Porto Ale-gre e Jornal do Salso. Os três últimos deixaram de circular em 1997. O Farol resisitiu até o primeiro semestre de 1999. No segundo semestre foi colocado à venda e interrompeu sua circulação.
O Farol era um mensário com 16 páginas, tablóide, tiragem de 6 mil exemplares, com circulação na Vila Assunção, Tristeza, Cavalhada, Ipanema, Belém Novo, Lami e Restinga, bairros da zona sul de Porto Alegre. Fundado por Jorge Urruth, o jornal contava com um jornalista free-lancer, impresso em duas cores na capa e contracapa (vermelho e preto) distribuição gratuita em pontos comerciais da região e entrega domiciliar no bairro Assunção. O cm/col da página indeterminada era comercializado a R$ 8,00.
O Jornal do Bairro era um mensário, fundado por João Francisco (nome profissio-nal utilizado pelo proprietário do jornal). Era impresso em três cores, 12 páginas, formato tablóide, tiragem de 10 mil exemplares, produzido exclusivamente pelo fundador, e circu-lava em pontos comerciais da zona sul de Porto Alegre. O cm/col da página indetermina-da era comercializado a R$ 3,00.
O Taí Porto Alegre, também com circulação na zona sul, foi fundado por Dalmiro Justo. Era um mensário com oito páginas, formato tablóide, distribuição gratuita de 3 mil exemplares em alguns pontos comerciais e domicílios da região. Justo contava com dois jornalistas colaboradores para produção do jornal. O cm/col da página indeterminada era comercializado a R$ 3,00, em média, e seu custo industrial era de R$ 850,00.
O Jornal do Salso foi criado pelo jornalista Cláudio Somacal, com quatro páginas, periodicidade mensal, formato tablóide, distribuição gratuita de cinco mil exemplares nas residências do bairro Jardim do Salso, que possui 4.387 moradores e 1.488 domicílios particulares. O jornal era comercializado a R$ 5,00 o cm/col de todas as páginas e o custo industrial (fotolito e impressão), feito na gráfica do Jornal do Comércio, era de R$ 310,00.
No ano de 1995, quando já circulavam 21 jornais de bairro, surgem mais 15 em di-ferentes pontos da capital gaúcha. Cláudio Somacal, que havia lançado o Jornal do Salso um ano antes, investe no gênero e funda mais quatro jornais: Jornal Partenon Centro, Jornal da Vila Jardim, Jornal Bairro J. Botânico e Jornal Petrópolis. Todos com quatro pá-ginas, periodicidade mensal, distribuição gratuita, formato tablóide e comercializados a R$ 5,00 o cm/col. Somente continua circulando o jornal Bairro J. Botânico e, ocasionalmente, o Parteno Centro.
O Jornal Partenon Centro foi lançado com uma tiragem de 8.000 exemplares e cir-cula no bairro Partenon, onde vivem 45.592 pessoas em 13.928 moradias. O Jornal da Vila Jardim tinha uma tiragem de 5.000 exemplares e circulava no bairro Vila Jardim. O Jornal Bairro J. Botânico circula com 5.000 exemplares no bairro Jardim Botânico.
O Jornal Petrópolis tinha uma tiragem de 6.000 exemplares e circulava no bairro Petrópolis, onde existem 35.369 moradores e 12.520 residências particulares.
No mesmo ano surge O Gazeta, fundado por Dirceu Garcia, com o propósito de circular na zona norte de Porto Alegre, constituída por 290 mil moradores. O Gazeta cir-culou quinzenalmente até 1997, com 12 páginas e uma tiragem de 5.000 exemplares, dis-tribuídos em pontos comerciais da região. Antes de fechar, contou com um jornalista e um estudante da área para sua produção. O formato era tablóide e o cm/col da página inde-terminada era comercializado a R$ 8,00.
O Já Moinhos, de Elmar Bonis da Costa, surge em setembro de 1995, com oito pá-ginas, formato standard, periodicidade quinzenal e tiragem de 10 mil exemplares, distribu-ídos gratuitamente no bairro Moinhos de Vento, que conta com uma população de 7.629 habitantes e 2.862 moradias. A distribuição atingia bairros vizinhos. Em 1998 foi fundido com os demais jornais da empresa Já Editores.
O cm/col do Já Moinhos era comercializado a R$ 10,70 e impresso em duas cores (capa e contracapa). Para sua produção editorial contava com seis jornalistas que traba-lhavam para a empresa Já Editores.
Também, no mesmo ano, surge o Rua da Praia, fundado por três jornalistas: João Carneiro, Vítor Ortiz e Celso Schöreder. Comercializado a R$ 10,00 o cm/col, o Rua da Praia, que deixou de circular em 1997, tinha formato tablóide, periodicidade mensal, im-presso com quatro cores na capa e contracapa, 600 assinantes e distribuição gratuita no centro de Porto Alegre. Sua tiragem era de 7.000 exemplares.
Por iniciativa de três estudantes de comunicação Diego Silveira, Carlos Wenneri-chs e Carlos Zorz , em 1995 surgiu o Mundo Moinhos com 12 páginas, impresso em qua-tro cores na capa e contracapa, mensal, tablóide, tiragem de 10 mil exemplares, distribuí-dos gratuitamente no bairro Moinhos de Vento. O espaço publicitário era comercializado a R$ 7,00 o cm/col da página indeterminada. Em 1997 deixou de circular.
No mesmo ano aparecem, ainda, os jornais Folha 3, Entre Ruas, Nosso Bairro, Gazeta Moinhos Independência, Correio Leopoldinense, Boa Vizinhança e Jornal do Con-do.
O Folha 3, em circulação até hoje, foi fundado pelos jornalistas Roberto Lopes Cor-rêa Gomes e Tânia Bampi. Com 12 páginas, duas cores (preto e verde), tablóide e men-sal, o jornal circula nos bairros Três Figueiras e Chácara das Pedras. As duas áreas são compostas por 10.441 moradores e 2.937 residências particulares. A tiragem do jornal é de 8.000 exemplares, entregues pelos proprietários nos domicílios dos moradores. Hoje, o Folha 3 é impresso em quatro cores na capa, contracapa e central.
O espaço publicitário do Folha 3 era comercializado a R$ 8,91 o cm/col da página indeterminada (atualmente passou para R$ 10,00). A distribuição conta, até hoje, com a contratação de alguns meninos dos dois bairros, que recebem R$ 20,00 por dia de traba-lho, mais alimentação.
Quinzenário com oito páginas, o Entre Ruas foi fundado por Sérgio Schieffer Bec-ker e deixou de circular em 1997. Sua tiragem era de 3.000 exemplares, distribuídos gra-tuitamente nas residências do bairro Bela Vista, que possui 8.917 moradores e 2.966 do-micílios particulares. Seu cm/col era comercializado a R$ 2,36 em páginas indetermina-das. Sua produção era feita na residência do fundador, com a participação de um colabo-rador.
Nosso Bairro, em circulação até hoje, é um jornal da Empresa Arcoíris Eventos, Promoções e Produções Ltda., com oito páginas, mensal, uma cor, 8.000 exemplares dis-tribuídos em pontos comerciais e em alguns domicílios dos bairros Santana, Azenha, Ci-dade Baixa e Santa Cecília. O cm/col da página indeterminada era comercializado a R$ 4,00 até 1997 e a produção do jornal é feita até hoje por um jornalista. O cm/col passou em 1999 para R$ 7,00.
O mensário Gazeta Moinhos Independência foi fundado pela empresa Grão Comu-nicação Editora para circular nos bairros Moinhos de Vento e Independência. Três mil e-xemplares são distribuídos gratuitamente entre os pontos comerciais e residenciais da região.
Em 1998, passou a chamar-se Gazeta Moinhos e está em circulação até hoje. Sua tiragem atual está em torno de 5 mil exemplares. Uma jornalista é responsável pelo perió-dico, comercializado a R$ 9,00 o cm/col da página indeterminada. Seu formato é tablóide, impressão quatro cores (a partir do primeiro semestre de 1999), oito páginas.
O Correio Leopoldinense, fechado em 1997, era um mensário, com 12 páginas, 8.000 exemplares de tiragem , tablóide, uma cor e circulava em pontos comerciais do bairro Ruben Berta, que possui 75.779 moradores e 21.762 residências. O jornal não pos-suía tabela de preço, mas, em média, considerando os valores cobrados para espaços relativos a um cartão de visita, seu cm/col era comercializado a R$ 3,00.
Boa Vizinhança surgiu por iniciativa de Marcelo Kunzler, um professor de Educação Física, que buscou a colaboração de duas jornalistas para produção do mensário, que fechou em 1998. Tablóide, 12 páginas, circulou nas casas comerciais do bairro Cidade Baixa. Esse periódico também não possuía tabela de preços, mas, em média, era comer-cializado a R$ 4,37 o cm/col da página indeterminada. Sua tiragem era de 5.000 exem-plares.
O Jornal do Condo, fechado em 1997, tinha uma proposta um pouco diferenciada dos demais jornais de bairro. Fundado por Sidney Silva Aparecido, sua distribuição era feita em alguns condomínios de Porto Alegre. Com uma tiragem de cinco mil exemplares, o Jornal do Condo era produzido mensalmente, com oito páginas, uma cor, formato ta-blóide e distribuído gratuitamente. O cm/col era comercializado a R$ 8,40 em páginas in-determinadas.
Em 1996, surgiram mais cinco jornais de bairro, por iniciativa de jornalistas que já haviam lançado outros periódicos do gênero. São eles: Já Cidade Baixa, Já Petrópolis, Mundo Petrópolis, Jornal Teresópolis e Jornal Vila do IAPI.
O Já Cidade Baixa e Já Petrópolis, do jornalista Elmar Bonis da Costa têm as mesmas características, sendo que o primeiro circulou no bairro Cidade Baixa, e o segun-do, em Petrópolis. Antes da fusão dos quatro jornais da Já Editores, circularam quinze-nalmente, por menos de um ano, com oito páginas, formato standard e distribuição gratui-ta em pontos comerciais dos bairros, cada um com 10 mil exemplares. A comercialização era feita a R$ 10,70 o cm/col da página indeterminada.
O mensário Mundo Petrópolis, dos estudantes de jornalismo Diego Silveira e Car-los Wennerchs, fechado em 1997, foi lançado com quatro cores na capa e contracapa, 8 páginas, formato tablóide, tiragem 10 mil exemplares, distribuídos nos domicílios e co-mércio do bairro Petrópolis. O cm/col da página indeterminada custava R$ 7,20.
O Jornal Teresópolis e o Jornal Vila do IAPI foram fundados, a título de experiên-cia, pelo jornalista Cláudio Somacal, mas também não sobrevive-ram. O primeiro teve apenas uma edição, que circulou com uma tiragem de 5.000 exemplares, distribuídos no bairro Teresópolis, com uma população de 11.038 moradores.
O segundo, teve duas edições, de 3.000 exemplares cada, e circulou no bairro Passo da Areia, onde moram 21.650 pessoas em 7.672 residências particulares. Os dois jornais tinham formato tablóide, periodicidade mensal, quatro páginas e foram comerciali-zados a R$ 5,00 o cm/col de todas as páginas.
O Jornal do Mercado foi fundado no primeiro semestre de 1997, pelo jornalista Jo-sé Granato Goulart, e deixou de circular no segundo semestre de 1998. Este periódico circulou no centro de Porto Alegre, mensalmente, com 12 páginas, uma cor, 15.000 e-xemplares, distribuídos especialmente no Mercado Público de Porto Alegre. Contava com um jornalista formado para produção das matérias, além do fundador. O centímetro por coluna era comercializado a R$ 7,00.
A administração do jornal era feita na casa do jornalista Goulart, onde possuía tele-fone e fax. O centro tem uma população de 38.271 habitantes e 16.910 moradias.
Entre 1997 e 1999 surgiram, pelo menos, mais sete jornais de bairro, não incluídos nesta pesquisa. Todos mensais, distribuição gratuita, de propriedade de jornalistas, ta-blóides, impressos em quatro cores na capa e contracapa , em circulação até hoje. São eles: Bela Vista, Olá!Botânico, Bah!, Bah! Zona Sul, Fala, São João, Folha do Porto e Mais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os jornais de bairro, analisados através de exemplares selecionados em 1996, ca-racterizam-se pela publicação de notícias específicas sobre as principais atividades e ne-cessidades do bairro onde circulam, atividades promovidas pela Prefeitura de Porto Ale-gre, e assuntos genéricos.
Segundo o estatuto da Associação dos Jornais de Bairro de Porto Alegre, criada em dezembro de 1997, tendo atualmente onze sócios, considera-se jornal de bairro

“aquele que pratica um jornalismo comunitário, através da divulga-ção de matérias informativas e opinativas de interesse geral da população de um ou mais bairros da cidade. Os principais objetivos de um Jornal de Bairro são: contribuir para formação de opinião, educar, auxiliar no cres-cimento da qualidade de vida dos moradores do bairro, defender os inte-resses dos cidadãos que residem no bairro onde circula, com indepen-dência e autonomia editorial, e apoiar eventos promovidos pelas comuni-dades, associações de bairro, entidades, fundações e governos, entre ou-tras entidades, quando procurados e desde que visem o bem geral da po-pulação.
Não se considera jornal de bairro os jornais segmentados, ou seja, aqueles que não dão cobertura jornalística ampla ao bairro, abordando todos os segmentos da sociedade, nem aqueles voltados para um público específico, não abrangendo a totalidade de moradores de um ou mais bairros determinados, nem aqueles que possuam periodicidade diferente da diária, trissemanária, bissemanária, semanária, quinzenária e mensal. Ficarão excluídos da entidade os jornais que circularem com mais de 50% da área útil de cada edição com anúncios, propaganda e publicidade”.

No ano de 1997, a administração de Porto Alegre deu um importante apoio eco-nômico a esse segmento, definindo uma política de distribuição da verba publicitária que incluiu os jornais de bairro da cidade. Sob a responsabilidade do Partido dos Trabalhado-res (PT), a prefeitura da capital gaúcha tem manifestado publicamente, através de seus líderes, o interesse em fortalecer os jornais não-diários da capital, de maneira a contribuir com a descentralização da notícia. Tal objetivo tem se revelado na prática, através do a-poio publicitário, ainda não bem definido em termos de política de mídia definitiva, e sim ocasional. Não se sabe, por exemplo, se existem critérios jornalísticos adotados para se-leção dos veículos, já que diversos jornais de bairro não recebem anúncios da Prefeitura. Por outro lado, alguns jornais que descumprem a legislação da categoria, como, por e-xemplo, não possuírem registro e jornalista responsável, são beneficiados com os anún-cios do poder público que, inacreditavelmente, anunciam em jornais clandestinos.
São características dos jornais de bairro a indefinição do número de páginas e da tiragem, pois esses periódicos dependem, a cada mês, da verba publicitária arrecadada para definirem esses dois itens. São raros os jornais de bairro que conseguem fechar con-tratos publicitários por mais de três meses, o que os torna instáveis com relação a um pro-jeto de médio e longo prazo.
O preço do cm/col de cada jornal não obedece a nenhum padrão. Os proprietários não sabem explicar por que o valor é comercializado a R$ 2,00, R$ 3,00, R$ 5,00 ou mais reais. Alguns dizem que trabalham “conforme a cara do freguês”. Outros explicam que foram obrigados a abaixar o valor porque não conseguiam comercializar a mais de R$ 5,00 o cm/col. Sabe-se, no entanto, que a maioria dos jornais não obedece o valor estipu-lado na tabela de preços. Trabalham com desconto e muitas permutas.
O Governo do Estado raramente investe em publicidade nesse segmento da im-prensa. Ocasionalmente, dois órgãos estaduais anunciaram nos jornais de bairro em 1997: a Companhia Estadual de Energia Elétrica (CEEE) e a Companhia Rio-grandense de Telecomunicações (CRT).
No entanto, esse mesmo governo, através do Banco do Estado do Rio Grande do Sul, da CEEE e da CRT, “por razões desconhecidas”, no ano de 1997, anunciou intensi-vamente em apenas um dos jornais de bairro, o Oi!, do Menino Deus, investindo, por edi-ção, de três a quatro anúncios de página inteira.
Também em decorrência da indefinição da receita mensal, a grande maioria dos jornais de bairro não realiza a distribuição do jornal de maneira adequada. Eles circulam basicamente nos pontos comerciais dos bairros, tais como: associações, supermercados, padarias, farmácias, clubes, escolas, lojas, academias, etc.
Essa estratégia prejudica a maior participação e envolvimento dos leitores na políti-ca editorial, pois observa-se que os jornais que circulam com entrega domiciliar têm maior respaldo da comunidade. É o caso dos jornais Oi!, Folha 3 e O Cristóvão. Esta estratégia, no entanto, não impediu o fechamento de diversos jornais com distribuição residencial.
A distribuição em pontos comerciais também dificulta a identificação do perfil do lei-tor e da realização de pesquisa com o mesmo. Destacamos, ainda, que a quase totalida-de dos jornais de bairro de Porto Alegre não circulam nos meses de janeiro e fevereiro porque, nesse período, o comércio não anuncia. Neles, boa parte da população consumi-dora migra para cidades litorâneas.
De maneira geral, é possível afirmar que os releases são bastante utilizados pelos jornais de bairro, destacando-se o material produzido pela Assessoria de Imprensa da Prefeitura Municipal. Também são bastante prestigiados pelos jornais o Serviço Social do Comércio (SESC) e o Serviço Social da Indústria (SESI), especialmente porque suas as-sessorias de imprensa realizam um trabalho intenso junto a este segmento.
Também recebe bastante apoio dos jornais de bairro os acontecimentos que envol-vem a área cultural, especialmente a música e a literatura. Infelizmente, muitas assessori-as de imprensa ainda não despertaram para essa realidade e não incluem em suas listas de divulgação os jornais de bairro. Lutam, apenas, pela publicação de seus releases na imprensa diária.
Do ponto de vista administrativo, de maneira geral esse segmento é bastante de-sorganizado. A maioria dos jornais não foi registrada no Cartório de Registros Especiais, como determina a lei, por desconhecimento da mesma. També é uma característica dos jornais de bairro de Porto Alegre a periodicidade irregular e o fechamento temporário de vários impressos. A atualização deste setor deve ser feita, pelo menos, a cada três me-ses. Nesse período muitos podem fechar, muitos podem abrir e muitos podem voltar a circular. Mudanças de endereços e telefones também são contantes e comuns .
Os Jornais de Bairro de Porto Alegre têm autonomia e independência editorial em relação ao governo do Estado e aos órgãos públicos e privados, porém não as usam por falta de condições econômicas. Ou seja, falta jornalista para realizar reportagens de peso, a exemplo do que fez o jornal Oi!, em 1995 e 1996.
A mesma independência não se observa em relação à Prefeitura de Porto Alegre. Porque sua verba publicitária está pulverizada entre cerca de 50 jornais comunitários (a maioria não é jornal de bairro), os jornais, salvo raras exceções, evitam publicar matérias que possam descontentar o Executivo Municipal. Além disso, atendem a qualquer pedido para divulgação de relises oriundos da Comunicação Social da Prefeitura.
Outra característica desse segmento é não ter êxito em campanhas de assinatura do jornal. Os leitores demonstram apreço pelas publicações, elogiam, pedem que conti-nuem, mas, conforme pesquisa, não pagariam a assinatura do jornal para tê-lo em casa .
Todos os jornais de bairro trabalham com a entrega gratuita residencial ou em pon-tos comerciais e locais de alta movimentação, como praças e clubes. A quase totalidade dos proprietários não possui sede própria. A administração dos jornais e produção são feitas nas suas casas. Todos possuem computadores de última geração e utilizam os programas Page Maker, para editoração eletrônica, e o World, para produção de textos.
Vinte e um jornais foram fundados por jornalistas e 22 por pessoas que provêm de outras atividades, especialmente vendas. No total, os 43 jornais empregam 21 jornalistas como free-lanceres. Em 27 jornais, as notícias publicadas são releases de assessorias de imprensa de órgãos públicos, especialmente da Prefeitura de Porto Alegre. Vinte e oito periódicos realizam reportagens junto à comunidade onde circulam. Vinte e três jornais trabalham em cooperação com as Associações de Moradores e 20, não. Todos eles, no entanto, procuram dar destaque aos acontecimentos do bairro.
Em média, a tiragem dos jornais de bairro é de 5.126. Se não considerarmos o jor-nal Oi!, que distribui 22.000 exemplares, a média cai para 4.614 exemplares. Mais da me-tade dos jornais surgiu a partir do ano de 1995.


2.4 TABELAS

TABELA 1

FORMATO DOS JORNAIS DE BAIRRO

Nome Jornal Formato Nome Jornal Formato
Oi! Menino Deus Tablóide Jornal do Salso Tablóide
Humaitá Tablóide O Gazeta Tablóide
Cidade Norte Tablóide Já Moinhos Standard
O Cristóvão Tablóide Rua da Praia Tablóide
Jardim Floresta Tablóide Mundo Moinhos Tablóide
Alto Petrópolis Tablóide Jornal do Condo Tablóide
O Jornalecão Tablóide Correio Leopoldinense Tablóide
Já Bonfim Standard Gazeta Moinhos Independência Tablóide
CS Zona Sul Tablóide Folha 3 Tablóide
A Palavra do Bairro Tablóide Nosso Bairro Tablóide
Distrito Tablóide Entre Ruas Tablóide
Menino Deus Assamed Tablóide Jornal Partenon Centro Tablóide
Cidade Baixa Tablóide Jornal Jardim Botânico Tablóide
Destak Tablóide Jornal Petrópolis Tablóide
O Bairro Tablóide Boa Vizinhança Tablóide
Norte Notícias Tablóide Já Cidade Baixa Standard
Zona Norte Tablóide Já Petrópolis Standard
Jornal Azenha Tablóide Mundo Petrópolis Tablóide
O Farol Tablóide Jornal Teresópolis Tablóide
Jornal do Bairro Tablóide Jornal Vila do IAPI Tablóide
Taí Porto Alegre Tablóide Jornal do Mercado Tablóide


TABELA 2

CARACTERÍSTICAS GERAIS DE 43 JORNAIS DE BAIRRO


NOME DO JORNAL
PERIODICIDADE ANO FUNDAÇÃO Nº DE PÁGINAS TIRAGEM PREÇO CM/COL
(R$) - 1996
Oi! Menino Deus Mensal 1983 20 22.000 15,25
Humaitá Mensal 1984 8 5.000 5,00
Cidade Norte Semanal 1984 12 15.000 5,00
O Cristóvão Mensal 1986 8 10.000 6,85
Jardim Floresta Bimestral 1986 4 2.000 - 1,00
Alto Petrópolis Mensal 1987 12 6.000 4,00
O Jornalecão Mensal 1987 16 18.000 8,00
Já Bonfim Quinzenal 1988 8 10.000 10,70
CS Zona Sul Quinzenal 1989 16 15.000 7,00
A Palavra do Bairro Mensal 1990 12 8.000 1,30
4º Distrito Mensal 1990 12 10.000 8,00
Menino Deus Assamed Mensal 1990 8 15.000 3,00
Cidade Baixa Mensal 1992 12 2.000 5,00
Destak Mensal 1992 12 4.000 5,00
O Bairro Mensal 1992 8 4.000 3,90
Norte Notícias Mensal 1993 12 12.000 4,00
Zona Norte Semanal 1993 12 7.000 7,00
Jornal Azenha Mensal 1993 12 5.000 5,00
O Farol Mensal 1994 16 6.000 8,00
Jornal do Bairro Mensal 1994 12 10.000 3,00
Taí Porto Alegre Mensal 1994 8 3.000 3,00
Jornal do Salso Mensal 1994 4 5.000 5,00
O Gazeta Quinzenal 1995 12 5.000 8,00
Já Moinhos Quinzenal 1995 8 10.000 10,70
Rua da Praia Mensal 1995 16 7.000 10,00
Mundo Moinhos Mensal 1995 12 10.000 7,00
Jornal do Condo Mensal 1995 8 5.000 8,40
Correio Leopoldinense Mensal 1995 12 8.000 3,00
Gazeta Moinhos Independência Mensal 1995 8 3.000 9,00
Folha 3 Mensal 1995 12 8.000 8,91
Nosso Bairro Mensal 1995 8 8.000 4,00
Entre Ruas Quinzenal 1995 8 3.000 2,36
Jornal Partenon Centro Mensal 1995 8 8.000 5,00
Jornal da Vila Jardim Mensal 1995 4 5.000 5,00
Jornal Bairro J. Botânico Mensal 1995 8 5.000 5,00
Jornal Petrópolis Mensal 1995 4 6.000 5,00
Boa Vizinhança Mensal 1995 12 5.000 4,37
Já Cidade Baixa Quinzenal 1996 8 10.000 10,70
Já Petrópolis Quinzenal 1996 8 10.000 10,70
Mundo Petrópolis Mensal 1996 8 10.000 7,20
Jornal Teresópolis Mensal 1996 4 5.000 5,00
Jornal Vila do IAPI Mensal 1996 4 4.000 5,00
Jornal do Mercado Mensal 1997 12 15.000 7,00
MÉDIAS MENSAL - 10 5.126 6,17


TABELA 3

CARACTERÍSTICAS DE PRODUÇÃO

NOME DO JORNAL
PROPRIETÁRIOSOU DIRETORES COM DIPLOMA EM JORNALISMO Nº DE CONTRATADOS COMO FREE- LANCER PRODUZEM REPORTAGENS EM TODAS A EDIÇÕES PREDOMINAM NOTAS, RELISES E ARTIGOS OPINATIVOS NO JORNAL INTERAGE COM A ASSOCIAÇÃO DO BAIRRO OU COM A COMUNIDADE
Oi! Menino Deus X 3 X - X
Humaitá - - - X X
Cidade Norte X 1 - X X
O Cristóvão X - X - X
Jardim Floresta - - - X X
Alto Petrópolis X - - X X
O Jornalecão - - X - X
Já Bonfim X 3 X - X
CS Zona Sul - 3 - X -
A Palavra do Bairro - - - - X
4º Distrito - - - X X
Menino Deus Assamed - 1 X - X
Cidade Baixa - - - X -
Destak - - - X -
O Bairro - - - X -
Norte Notícias - - - X -
Zona Norte - - - X -
Jornal Azenha X - - X -
O Farol - 1 - X X
Jornal do Bairro - - - X -
Taí Porto Alegre - - - X -
Jornal do Salso X - - X -
O Gazeta - 1 - X -
Já Moinhos X 3 X - X
Rua da Praia X 3 X - X
Mundo Moinhos - - X - X
Jornal do Condo - - - X X
Correio Leopoldinense - - - X X
Gazeta Moinhos Independência - 1 - X -
Folha 3 X - X - X
Nosso Bairro X 1 - X X
Entre Ruas - - - X -
Jornal Partenon Centro X - - X -
Jornal da Vila Jardim X - - X -
Jornal Bairro J. Botânico X - - X -
Jornal Petrópolis X - - X -
Boa Vizinhança X 2 X - -
Já Cidade Baixa X 3 - - X
Já Petrópolis X 3 X - X
Mundo Petrópolis - - X - X
Jornal Teresópolis X - - X -
Jornal Vila do IAPI X - - X -
Jornal do Mercado X - X - X

TOTAL 21 JORNAIS SOB O COMANDO DE JORNALISTAS SEGMENTO EMPREGA 20 FREE- LANCERES 13 JORNAIS REALIZAM REPORTAGENSMENSAIS
EM 28 JORNAIS PREDOMINAM RELEASES, ARTIGOS E NOTAS 23 JORNAIS INTERAGEM COM OS MORADORES


TABELA 4


JORNAIS COM CIRCULAÇÃO INITERRUPTA ATÉ JULHO/1999
NOME DO JORNAL OBSERVAÇÕES
Já Fusão de quatro jornais
Oi! -
O Gazeta -
Cidade Norte Passou de semanal para mensal
O Cristóvão -
Gazeta Moinhos Independência Novo nome: Gazeta Moinhos
Alto Petrópolis -
O Jornalecão -
Folha 3 -
CS Zona Sul -
Nosso Bairro -
Jornal Bairro J. Botânico -
Destak -
Zona Norte Passou de semanal para mensal
Jornal Azenha Periodicidade irregular
TOTAL 15




TABELA 5
JORNAIS DE BAIRRO DE PORTO ALEGRE SURGIDOS NO PERÍODO DE 1983 A 1999

NOME DO JORNAL
PERIODICIDADE ANO FUNDAÇÃO Nº DE PÁGINAS TIRAGEM SITUAÇÃO ATUAL
(1999)
Oi! Mensal 1983 20 22.000 Circulando
Humaitá Mensal 1984 8 5.000 Fechado
Cidade Norte Semanal 1984 12 15.000 Circulando
O Cristóvão Mensal 1986 8 10.000 Circulando
Jardim Floresta Bimestral 1986 4 2.000 Fechado
Alto Petrópolis Mensal 1987 12 6.000 Circulando
O Jornalecão Mensal 1987 16 18.000 Circulando
Já Bom Fim Quinzenal 1988 8 10.000 Fechado
CS Zona Sul Quinzenal 1989 16 15.000 Circulando
A Palavra do Bairro Mensal 1990 12 8.000 Fechado
4º Distrito Mensal 1990 12 10.000 Fechado
Menino Deus Assamed Mensal 1990 8 15.000 Irregular
Cidade Baixa Mensal 1992 12 2.000 Fechado
Destak Mensal 1992 12 5.000 Circulando
O Bairro Mensal 1992 8 4.000 Fechado
Norte Notícias Mensal 1993 12 12.000 Fechado
Jornal Azenha Mensal 1993 12 5.000 Circulando
O Farol Mensal 1994 16 6.000 Fechado
Farol Restinga Mensal 1998 8 6.000 Fechado
Jornal do Bairro Mensal 1994 12 10.000 Fechado
Taí Porto Alegre Mensal 1994 8 3.000 Fechado
Jornal do Salso Mensal 1994 4 5.000 Fechado
O Gazeta Quinzenal 1995 12 5.000 Fechado
Já Moinhos Quinzenal 1995 8 10.000 Fechado
Rua da Praia Mensal 1995 16 7.000 Fechado
Mundo Moinhos Mensal 1995 12 10.000 Fechado
Jornal do Condo Mensal 1995 8 5.000 Fechado
Correio Leopoldinense Mensal 1995 12 8.000 Fechado
Gazeta Moinhos Mensal 1995 8 3.000 Circulando
Folha 3 Mensal 1995 12 8.000 Circulando
Nosso Bairro Mensal 1995 8 8.000 Circulando
Entre Ruas Quinzenal 1995 8 3.000 Fechado
Jornal Partenon Centro Mensal 1995 8 8.000 Irregular
Jornal da Vila Jardim Mensal 1995 4 5.000 Fechado
Jornal J. Botânico Mensal 1995 8 8.000 Circulando
Jornal Petrópolis Mensal 1995 4 6.000 Fechado
Boa Vizinhança Mensal 1995 12 5.000 Fechado
Já Cidade Baixa Quinzenal 1996 8 10.000 Fehado
Já Petrópolis Quinzenal 1996 8 10.000 Fechado
Mundo Petrópolis Mensal 1996 8 10.000 Fechado
Jornal Teresópolis Mensal 1996 4 5.000 Fechado
Jornal Vila do IAPI Mensal 1996 4 4.000 Fechado
Jornal do Mercado Mensal 1997 12 15.000 Fechado
Bah! Mensal 1998 8 15.000 Fechado
Bah! Zona Sul Mensal 1998 8 7.000 Fechado
Fala, São João Mensal 1999 8 10.000 Circulando
Bela Vista Mensal 1997 8 7.000 Circulando
Olá! Botânico Mensal 1998 8 5.000 Circulando
Mais Mensal 1999 12 3.000 Circulando
Folha do Porto Mensal 1998 8 10.000 Circulando
Já Quinzenal 1999 8 15.000 Circulando


Número total de jornais: 51

Número de jornais com circulação initerrupta: 18

Número de jornais fechados temporariamente: 31

TABELA 6



CONTAGEM POPULACIONAL – 1996 – BAIRROS DE PORTO ALEGRE ONDE CIRCULAM JORNAIS DE BAIRRO
NOME DO BAIRRO POPULAÇÃO Nº DE RESIDÊNCIAS
Anchieta 204 62
Auxiliadora 10.123 3.785
Azenha 14.457 5.371
Bela Vista 8.917 2.966
Belém Velho 6.713 1.860
Belém Novo 13.135 3.766
Bonfim 11.007 4.666
Camaquã 21.820 6.787
Cavalhada 19.522 6.171
Centro 38.271 16.910
Chácara das Pedras 6.328 1.879
Cidade Baixa 17.301 7.706
Cristal 21.222 6.463
Cristo Redentor 15.016 5.280
Espírito Santo 5.454 1.544
Farrapos 15.312 4.321
Farroupilha 1.240 456
Floresta 23.390 8.819
Glória 8.486 2.647
Guarujá 2.387 689
Higienópolis 9.419 3.394
Hípica 8.330 2.238
Humaitá 10.771 3.421
Independência 7.251 2.918
Ipanema 14.612 4.044
Jardim Botânico 11.424 3.934
Jardim do Salso 4.387 1.488
Jardim Itu-Sabará 35.334 10.603
Jardim Lindóia 7.163 2.319
Lami 3.658 1.086
Medianeira 12.192 3.875
Menino Deus 28.396 10.400
Moinhos de Vento 7.629 2.862
Mont Serrat 10.026 3.600
Navegantes 5.174 1.812
Nonoai 31.286 9.002
Partenon 45.592 13.928
Passo da Areia 21.650 7.672
Petrópolis 35.369 12.520
Praia de Belas 1.956 768
Restinga 40.490 10.509
Rio Branco 19.953 7.407
Rubem Berta 75.779 21.762
Santa Cecília 7.036 2.487
Santa Maria Goretti 4.230 1.394
Santa Teresa 41.961 11.184
Santana 21.853 8.055
Santo Antonio 14.323 4.826
São Geraldo 4.816 1.664
São João 10.237 3.660
Teresópolis 11.038 3.265
Três Figueiras 4.113 1.058
Tristeza 14.715 4.705
Vila Assunção 4.494 1.259
Vila Ipiranga 20.912 7.231
Vila Jardim 9.351 2.649
Vila Nova 31.452 9.204



BIBLIOGRAFIA


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